Jardim das Águas e das Memórias
Jardim das Águas e das Memórias
Quando fui convidado para a exposição Interpretações Santistas, pensei imediatamente na cidade como um corpo vivo — uma entidade moldada pela natureza e pela fé. Santos, com seu jardim da orla, o maior jardim frontal de praia do mundo, sempre me pareceu um altar estendido diante do mar. Um espaço de celebração e entrega, de beleza e trabalho. Por isso, decidi criar uma assemblagem que unisse o sagrado e o cotidiano, a devoção e o descarte.
No centro da obra está Iemanjá, mãe das águas e das travessias. Em volta dela, flores artificiais — símbolo de uma natureza construída, preservada e também manipulada pelo homem — se misturam a tampinhas de refrigerante, rolhas de vinho e fragmentos de consumo urbano. Esses elementos, colhidos pelas ruas e pela praia, pertencem ao mesmo território que a obra homenageia. São resíduos de uma Santos real, múltipla, viva e contraditória.
O gesto de respingar tinta azul sobre as flores e os objetos — um diálogo com a pintura de ação de Jackson Pollock e Janet Sobel — representa o mar em movimento, o acaso que cria novas formas, como se as águas batessem nas margens e redesenhassem tudo o que tocam. A cor azul não é apenas marinha; é espiritual, profunda, lembrando a energia que atravessa os rituais de Iemanjá nas areias de Santos, especialmente nas celebrações de fim de ano.
Assim como Pollock, trabalho a pintura como um ato performático — o gesto é tão importante quanto o resultado. Mas, diferentemente dele, o suporte aqui não é a tela, e sim o objeto encontrado, a matéria do mundo. Aproximo-me também de Janet Sobel, precursora da técnica do dripping, cuja sensibilidade transformava o caos em revelação. Nessa sobreposição de devoção e materialidade, procuro um caminho próprio: o da fé que sobrevive entre resíduos, o da beleza que resiste nas sobras do cotidiano.
Vejo minha obra como um microcosmo de Santos — cidade que mistura o sagrado e o profano, o verde dos jardins e o brilho plástico do consumo, o mar das oferendas e o asfalto dos caminhões. Ao unir esses elementos, homenageio não apenas a paisagem, mas também a força simbólica e espiritual que sustenta a vida à beira-mar.
Este trabalho é, portanto, uma oferenda à cidade e à sua gente. Uma lembrança de que toda beleza, mesmo a mais artificial, carrega em si o desejo de permanência — e que todo gesto de fé, mesmo cercado de fragmentos e resíduos, ainda pode revelar o infinito.
Processo de Criação
A obra foi concebida especialmente para a exposição Interpretações Santistas, que propunha a cada artista representar a cidade de Santos sob sua própria ótica, mantendo a cor azul celeste como referência visual e simbólica.
Iniciei o processo com um desenho abstrato orgânico, feito de traços livres e fluídos. Embora a ideia tenha sido logo descartada, esse esboço inicial serviu como um guia silencioso para a composição posterior — um mapa invisível para a colagem dos elementos.
Comecei aplicando tampas plásticas de bebidas alcoólicas e refrigerantes, fragmentos do consumo cotidiano e da paisagem urbana santista. Em seguida, inseri rolhas de cortiça e plástico, materiais que remetem à celebração e à passagem do tempo. Sobre essa base, colei uma variedade de folhas e flores artificiais, criando um jardim denso e vibrante — uma alusão direta ao extenso jardim frontal da orla da cidade, um dos símbolos mais reconhecidos de Santos.
O passo seguinte foi o gesto pictórico: gotejei tinta azul sobre toda a superfície, retomando o movimento gestual e espontâneo presente nas obras de Jackson Pollock e Janet Sobel, mas aqui o dripping assume um caráter simbólico — o azul representa o mar, o sagrado e a energia vital que une todos os elementos.
Por fim, posicionei no centro a estatueta de Iemanjá, encerrando o processo com um gesto devocional. A figura da divindade, rodeada por flores e resíduos, torna-se eixo e presença espiritual, uma oferenda à cidade e às águas que a cercam.
O trabalho foi realizado em cerca de três horas, num fluxo contínuo, intuitivo e meditativo. Cada material foi colado manualmente, sem planejamento rígido, permitindo que o acaso e a sensibilidade definissem a harmonia entre os elementos. O resultado final é um tributo à cidade de Santos — um jardim simbólico em que fé, natureza e urbanidade se entrelaçam em permanente diálogo.
🟦 Ficha Técnica (para catálogo)
Título: Jardim das Águas e das Memórias
Artista: Olegário Monteiro
Ano: 2025
Técnica: Assemblagem sobre base rígida com colagem de materiais diversos, tinta acrílica e objeto tridimensional
Materiais: Flores e folhagens artificiais, tampas plásticas de bebidas, rolhas de cortiça e plástico, estatueta de Iemanjá, tinta acrílica azul, cola vinílica
Dimensões: 60 x 30 x 14 cm (aprox.)
Tempo de execução: 3 horas
Descrição: Criada especialmente para a exposição Interpretações Santistas, a obra homenageia a cidade de Santos e seu jardim da orla, dialogando com o gesto pictórico de Jackson Pollock e Janet Sobel. A figura de Iemanjá, envolta por flores e resíduos urbanos, simboliza a fusão entre o sagrado e o cotidiano — uma oferenda à cidade e ao mar que a define.

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