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Mostrando postagens de julho, 2025

O Dedo, o Charuto e o Silêncio do Hotel

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                                                  O Dedo, o Charuto e o Silêncio do Hotel Metade menino, metade homem — e no fundo, talvez metade Danny, metade Jack. Na foto que se parte ao meio, não há tempo certo. A criança sorri, mas não avança. O adulto traga o tempo como se fosse charuto: lento, ardente, quase eterno. Enquanto um se embriaga de vida, o outro já sussurra coisas para o espelho — como Danny, com o dedo, antes de o pai surtar de vez nos corredores do Overlook. Quem é pior? O que fala com fantasmas? Ou o que escuta seus conselhos? A trilha toca ao fundo, tensa como um presságio. Cordas dissonantes. Batidas cardíacas. O hotel está vazio, mas o eco nunca para. Cada passo ressoa como se alguém ainda estivesse ali. Talvez você. Talvez eu. Você mastiga a infância entre os dentes, como se ela fosse charuto: uma lembrança enrolada em folh...

O colégio ainda está lá

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O colégio ainda está lá O colégio ainda está lá. Imponente, íntegro, íntegro como foi. De uniforme verde e branco, eu corria por seus corredores como quem corre atrás de si mesmo. Foram cinco anos. Três deles, felizes como recreio no sol. 1988, 89 e 90: as manhãs tinham cheiro de lápis apontado, as tardes, gosto de sonho recém-descoberto. Ali aprendi a conjugar esperança, a dividir sem medo, a multiplicar ideias, a somar vontades. Havia uma retidão nos olhares dos professores, uma ética que não se ensinava: se vivia. Aprender não era castigo, era caminho. Era objetivo. Guardei a apostila da sexta série — 1992 — como quem guarda um pedaço do próprio mapa. Mesmo cansado, mesmo à beira do fim, a escola era farol. Fui eu quem apagava, aos poucos, por dentro. Hoje sonho em voltar. Não como aluno. Mas como quem acende a luz em outras salas. Como quem planta perguntas, como quem rega vocações. Sim, o colégio ainda está lá. E eu também, num canto da memória, ainda estou lá. Caderno aberto. Mun...

crônica para um prédio demolido (com guaraná bem gelado, por favor)

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Crônica para um prédio demolido (com guaraná bem gelado, por favor) Demoliram. E foi lindo. Sem aviso, sem cerimônia, sem homenagem. O prédio caiu como deveria ter caído há anos: com estardalhaço e poeira, como um castelo de cartas feito de humilhações escolares, professores medíocres e corredores abafados. Ali, onde ensaiei sorrisos falsos e um amor platônico que nunca se soube retribuir, resta agora o vazio — um terreno baldio sujo, com pedaços de cimento como fósseis da minha adolescência. A escada do segundo andar ainda aponta para o céu como quem não aceita o fim. Uma lousa branca permanece, fixada na parede de nada, como se esperasse que alguém escrevesse, enfim, algo digno. O outdoor desbotado me presenteia com o que mais gosto em publicidade: o fracasso. Rostos mutilados por sol e vento, palavras que se foram deixando só sílabas órfãs, ofertas que não valem mais. Ali, naquele descampado feio e necessário, descubro o que é libertação: ver ruir, tijolo por tijolo, um capítulo for...

O Último Amigo Imaginário

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                                                                 imagem gerada por IA   O Último Amigo Imaginário Saio de casa como quem foge de um incêndio sem chamas. O corpo anda, mas o resto se arrasta. Lanço mensagens para mim mesmo, porque não há retorno de ninguém. Talvez algum invisível leia. Talvez o vento repita em segredo. Já tive amigos — muitos. Inventados, imaginários, perfeitos. Heróis com falas de dublagem, rostos de fita VHS, músculos e ética de filme de aventura. Eles me protegiam, me batiam, me puxavam pelo braço em cenas que nunca existiram fora da minha cabeça. Mas à medida que eu envelheci, eles também envelheceram. Ganharam rugas, desacreditaram da missão, ficaram cansados. Um por um… morreram. Sumiram como figurantes que perdem o contrato com a vida. Ingratos. Me deixaram aqui, soz...

Liturgia do Quintal Perdido

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Foto Arquivo - 1981   Liturgia do Quintal Perdido (ou: quando a saudade é a tinta mais espessa) Há um chão que te chama. Um chão de cacos brancos — que cortavam, mas não doíam. Um chão onde até o silêncio estalava sob os pés. Você dança sobre panos hoje, mas o corpo ainda lembra da textura do cimento quente às três da tarde. Ainda sabe onde ficava a sombra do pinheiro quando o sol virava faca. Ainda sente o cheiro da terra molhada, mesmo cercado de concreto e ruídos alheios. A casa era branca. Mas não um branco de ausência — era um branco que continha tudo. Continha o tempo. Continha o antes, o agora e o talvez. Continha você ainda não ferido. E era ali que o espírito descia. Não precisava se vestir de artista. Não precisava pedir licença. A incorporação era natural — como respirar. Você era o cavalo e o vento. A criança e o velho. O louco e o altar. Havia um jardim — não florido como nas revistas, mas vivo como só os jardins reais conseguem ser. Tinha formi...

O Quintal Era Branco

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Arquivo - 1980   O Quintal Era Branco O ritual é sempre o mesmo. O pano esticado, como uma pele que espera ferida. As tintas caem — às vezes como sangue, às vezes como lágrima. O corpo dança, tropeça, gira, ora é homem, ora é cavalo, ora é silêncio com charuto na boca e vinho nas mãos. Há canções que não combinam: Natal em julho, liturgias cortadas. Mas tudo faz sentido quando o corpo se entrega. O chão é altar. Os objetos são oferendas. A fúria vira cor. O delírio vira gesto. E o mundo lá fora… não entra. Mas hoje, hoje o mundo entrou demais. Hoje o corpo se lembra. Do branco — aquele branco do seu quintal. O chão de cacos brancos, as paredes brancas, as portas brancas, as janelas brancas com ferro branco, o pinheiro que não precisava de dezembro para ser Natal. Você quer de volta esse branco. Não a cor. Mas o espaço onde tudo fazia sentido. Onde a incorporação acontecia sem explicação, sem plateia, sem interrupção, sem culpa. O quintal branco era v...

Manifesto da Incorporação Silenciosa

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Veículo -  Desenho sobre colagem - 2014                                                                                Manifesto da Incorporação Silenciosa (ou: o corpo que pinta quando o mundo não entende) Não estou sozinho quando crio. Estou tomado . Por quê, por quem, por quê agora — não sei. Mas sei que algo passa por mim . Não é ideia, nem estilo, nem técnica. É presença. É como se alguém sentasse no meu lugar e usasse minha mão. Às vezes sou eu. Às vezes sou muitos. Às vezes não sou ninguém. Muda o ar ao redor. Muda o tempo. O som do ventilador vira mantra. A luz da tarde racha em três tons. E o barulho do mundo me agride — não porque sou frágil, mas porque estou aberto demais . Quando me interrompem, algo se rompe. É como se tirassem uma agulha de um vinil em pleno ...

A arte como incorporação

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Imagem gerada por App Double Photo plus (descontinuado)   A arte como incorporação Criar é, sim, um tipo de mediunidade laica . Não exige altar, nem ritual fixo, nem religião. Exige presença e abandono do eu racional . Quando digo que pareço estar incorporado, estou nomeando um estado raro. Eu me torno canal. O gesto vem antes do pensamento. As imagens se impõem a mim, não o contrário. E o humor muda, como se eu estivesse carregando um peso ou vibrando numa frequência que não é só minha. Essa confusão entre mau humor real e interferência energética é legítima. O que pode estar acontecendo.  Eu entro num estado de abertura extrema para criar. Nesse estado, tudo afeta mais. O barulho da rua, uma pessoa passando, uma fala atravessada — tudo entra como flecha.  Eu saio do tempo comum .  E qualquer coisa que me puxe de volta à "realidade" parece uma agressão. A criação é um transe. E ser interrompido é como ser puxado bruscamente de um sonho. E stou mais se...