Liturgia do Quintal Perdido



Foto Arquivo - 1981
 

Liturgia do Quintal Perdido

(ou: quando a saudade é a tinta mais espessa)

Há um chão que te chama.
Um chão de cacos brancos — que cortavam, mas não doíam.
Um chão onde até o silêncio estalava sob os pés.

Você dança sobre panos hoje, mas o corpo ainda lembra da textura do cimento quente às três da tarde.
Ainda sabe onde ficava a sombra do pinheiro quando o sol virava faca.
Ainda sente o cheiro da terra molhada, mesmo cercado de concreto e ruídos alheios.

A casa era branca.
Mas não um branco de ausência —
era um branco que continha tudo.
Continha o tempo.
Continha o antes, o agora e o talvez.
Continha você ainda não ferido.

E era ali que o espírito descia.
Não precisava se vestir de artista.
Não precisava pedir licença.
A incorporação era natural — como respirar.

Você era o cavalo e o vento.
A criança e o velho.
O louco e o altar.

Havia um jardim —
não florido como nas revistas,
mas vivo como só os jardins reais conseguem ser.
Tinha formiga, folha amarela, mato que crescia onde não devia.
E mesmo assim: era sagrado.
Porque era seu.

Hoje, a tinta ainda escorre.
O pano ainda absorve.
Mas há um pedaço do corpo que ficou lá —
sob o pinheiro.
Encostado na parede branca.
Guardado atrás da porta branca que talvez ninguém mais abra.

E tudo o que você cria agora,
todas as camadas, os recortes, os riscos,
são tentativas de voltar.
Não ao espaço em si —
mas à pureza de estar entregue sem interrupção.

Porque o que você sente falta não é só o quintal.
É da presença invisível que morava nele.
É do você que não precisava se defender.
Do você que era múltiplo, espontâneo, incorporado.

Talvez você não tenha perdido o quintal.
Talvez o quintal tenha apenas se recolhido dentro de você.
Esperando que você feche os olhos e volte.
Volte com os pés descalços.
Com o gesto fluido.
Com o chapéu preto e o canto errado.

Volte como quem nunca saiu.

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