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Mostrando postagens de 2026

O deslocamento pelas ruas

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Monteiro constrói, em Terras Abstratas, uma poética que não se acomoda — ela pulsa, colide e se reorganiza a partir de um repertório tão amplo quanto indisciplinado. Há, em sua produção, a tensão entre o rigor estrutural e o desvio expressivo, algo que ecoa tanto a crueza fragmentária de Ricardo Ramos em Circuito Fechado quanto a violência coreografada de Quentin Tarantino, onde cada elemento parece calculado, mas nunca estéril. Sua obra se constrói nesse limiar: entre o controle e o acidente. Na pintura, Olegário reivindica a energia do gesto. A herança de Jackson Pollock não aparece como citação superficial, mas como método incorporado — o corpo como extensão direta da matéria. O drip não é apenas técnica, é inscrição física do tempo. Cada camada, cada escorrimento, carrega uma temporalidade própria, quase como se o suporte fosse um campo de registro sísmico das suas ações. Há também um eco distante de Salvador Dalí, não na forma, mas na licença de tensionar o real até o limite da di...

Olegário Monteiro – entre o sagrado, o fragmento e a permanência do efêmero

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Olegário Monteiro – entre o sagrado, o fragmento e a permanência do efêmero Olegário Monteiro é um artista visual cuja obra transita entre a memória, a espiritualidade e a arqueologia do cotidiano. Sua trajetória se estrutura em camadas de experimentação — da pintura à assemblage, do frottage à colagem —, em um diálogo constante entre destruição e reconstrução. Desde Impermanência(s), exposição que marcou uma virada conceitual em sua produção, Olegário tem aprofundado uma poética dos resíduos: cacos de vidro, fragmentos urbanos, flores de plástico e restos cerâmicos tornam-se portadores de história e afeto. Em suas mãos, o descartável ganha dignidade simbólica; o fragmento, potência narrativa. Na série Cadência dos Fragmentos, o artista alcança maturidade estética e filosófica. O gesto de cortar, reorganizar e recompor não é apenas formal, mas ritualístico — um exercício de fé e reconstrução do sentido. Sua pesquisa sobre combine painting e a incorporação de materiais não convencionais...

A escada e o céu: o gesto de ascender

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A escada e o céu: o gesto de ascender No centro da instalação, uma escada se erguia sobre o mar de retalhos — como um elo entre a terra e o céu. O visitante era convidado a subir, não para alcançar um ponto físico de observação, mas para experienciar simbolicamente a travessia espiritual. Cada degrau representava uma elevação do olhar, uma tentativa de transcendência diante do caos colorido da matéria. A iluminação direcionada reforçava esse caráter sagrado, projetando sobre o corpo do participante uma luz que evocava tanto a revelação quanto a purificação. Essa escada pode ser compreendida como uma metáfora da ascensão interior, em diálogo com as visões místicas de Santa Teresa d’Ávila , que descreve o caminho espiritual como a subida de um castelo interior. A verticalidade, nesse contexto, é símbolo de busca, de reconciliação entre o terreno e o divino — um tema caro à história da arte. Em A Escada de Jacó , atribuída a Bartolomé Esteban Murillo, a escada é o meio pelo qual anjos t...

Entre retalhos e mantos: o corpo da arte e a arte do corpo

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  Entre retalhos e mantos: o corpo da arte e a arte do corpo A instalação apresentada constitui um campo expandido da pintura e da assemblagem, em que a superfície do chão se torna o suporte e o público participa ativamente do processo de significação. O “tapete de retalhos” — uma extensão multicolorida feita de fragmentos de tecido, papéis e sobras de obras anteriores — cria uma topografia instável, viva, que convida à travessia. Caminhar sobre esse chão é um ato simbólico: o visitante se torna parte da obra e, ao recolher um retalho ao final da experiência, leva consigo um vestígio da criação e, simultaneamente, a consciência da perda. Essa dinâmica remete à Lygia Clark , cujas proposições sensoriais dissolviam as fronteiras entre espectador e artista. Assim como Clark concebia a arte como um organismo que se ativa na relação, Gaio transforma o ato de caminhar sobre os retalhos em um ritual de integração — um percurso que une destruição, reconstrução e partilha. O gesto de ofer...

Terras Abstratas - Em breve

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  Terras Abstratas Entre o gesto e o silêncio da terra, a obra se forma como quem recolhe o que resta e o que renasce. Olegário Monteiro investiga a natureza em estado de transformação — cor, textura, umidade, sons, odores, decomposição, brotação — e converte esses ritmos em linguagem plástica. As telas, assemblagens e fragmentos que compõem Terras Abstratas emergem de uma ecologia íntima: o diálogo entre o que se desfaz e o que resiste. Cada superfície é testemunho de um tempo em decomposição, de uma matéria que se reorganiza como organismo autônomo. Há, no gesto do artista, uma herança da arte moderna — o impulso de abstrair o mundo para reencontrá-lo. Mas, aqui, o automatismo é também vegetal, mineral, atmosférico. As formas não apenas representam a terra: respiram com ela. Nesse território em suspensão, o olhar se torna tátil. As cores condensam a umidade do ar, os vestígios de folhas, o pólen invisível, o som das águas subterrâneas. Em Terras Abstratas , a pintura deixa d...

Espelho da mente

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  Essa terceira obra expande o campo simbólico dos desenhos anteriores — não mais o corpo em desintegração, mas o mundo que o cerca tomado pela mesma perturbação interior. O cenário, aparentemente idílico, é contaminado por sinais de desordem: o céu rasgado por tentáculos azul e vermelho, a paisagem fraturada em mosaicos de verdes e terrosos, e o código Morse disfarçado no sol como grito mudo. A natureza, aqui, já não é refúgio, mas espelho da mente. Tecnicamente, nota-se um amadurecimento no uso do contraste entre estabilidade e caos. A casa, com suas linhas retas e telhado vermelho, representa o centro racional — o ego tentando permanecer íntegro. Ao redor, tudo se fragmenta em campos de cor vibrante, em pinceladas e traços que giram e se entrelaçam, formando um solo quase vivo. O preto delimitando as formas funciona como contenção simbólica: linhas que tentam segurar o colapso, como costuras num tecido em rasgo. A cena pode ser lida como uma paisagem psíquica — uma psychoscape, ...

“eu”

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  Esta segunda obra leva a experiência anterior a um ponto de maior densidade psicológica. A figura — agora isolada e mais frontal — parece tomada por uma espécie de convulsão interior. O rosto fragmentado, quase dissolvido em manchas de cor e linhas cruzadas, dá forma a um estado mental em colapso, um “eu” contaminado por forças que o atravessam. Tecnicamente, o uso das canetas hidrográficas cria um contraste agressivo entre áreas planas e traços energéticos, enquanto a ausência de colagem enfatiza o gesto direto e confessional. O desenho é construído por sobreposição de planos cromáticos e padrões — espirais, zigue-zagues, preenchimentos vibrantes — que lembram o automatismo psíquico do surrealismo. Há ecos do expressionismo alemão (como em Ernst Ludwig Kirchner e Emil Nolde), do universo de Jean Dubuffet e do Art Brut — especialmente nas figuras que parecem expressar estados mentais limítrofes. As cores — densas e discordantes — não seguem uma lógica de harmonia, mas de pertur...

obsessores

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A obra apresenta uma figura central envolta em um emaranhado de cores e linhas que evocam movimento, fluxo e tensão. A técnica mista — uso de canetas hidrográficas e colagem — reforça esse contraste entre o controle e o acaso. O gesto das linhas, soltas e sobrepostas, sugere interferências, presenças e forças que orbitam o corpo, sem defini-lo totalmente. Há algo de fragmentário e caótico, como se o espaço ao redor fosse um campo de energia espiritual ou psíquica em constante agitação. A figura humana parece em suspensão, talvez caminhando, talvez sendo atravessada por correntes invisíveis. O olhar, parcialmente encoberto, reforça o mistério e o caráter interior do tema: não se trata de uma cena exterior, mas de uma travessia interna. A sobreposição de cores — entre quentes e frias — cria uma sensação de conflito vibrante, enquanto os espirais e linhas curvas parecem simbolizar pensamento, tormento ou atração. Mesmo sem dizer explicitamente “obsessores”, o trabalho lida com a ideia de ...

Jardim das Águas e das Memórias Assemblage com flores artificiais, objetos urbanos e estatueta de Iemanjá

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Jardim das Águas e das Memórias Assemblage com flores artificiais, objetos urbanos e estatueta de Iemanjá   A obra apresenta-se como um altar contemporâneo dedicado à fé e à cidade de Santos, onde o sagrado se entrelaça com o cotidiano. A técnica da assemblage — derivada das experimentações de artistas como Joseph Cornell e Robert Rauschenberg — é aqui utilizada como meio de síntese poética: fragmentos e resíduos do mundo material são reunidos e ressignificados. Flores plásticas, tampas de garrafa, rolhas e outros elementos comuns tornam-se parte de uma paisagem devocional que celebra o encontro entre natureza, artifício e espiritualidade. No centro, a estatueta de Iemanjá — orixá das águas e mãe das cabeças — emerge envolta por uma profusão de cores e texturas, símbolo da força feminina e do fluxo vital que conecta o mar à cidade. As flores artificiais, com sua permanência sintética, contrastam com a ideia de efemeridade presente na oferenda tradicional, transformando o ato de dev...