obsessores






A obra apresenta uma figura central envolta em um emaranhado de cores e linhas que evocam movimento, fluxo e tensão. A técnica mista — uso de canetas hidrográficas e colagem — reforça esse contraste entre o controle e o acaso. O gesto das linhas, soltas e sobrepostas, sugere interferências, presenças e forças que orbitam o corpo, sem defini-lo totalmente. Há algo de fragmentário e caótico, como se o espaço ao redor fosse um campo de energia espiritual ou psíquica em constante agitação.


A figura humana parece em suspensão, talvez caminhando, talvez sendo atravessada por correntes invisíveis. O olhar, parcialmente encoberto, reforça o mistério e o caráter interior do tema: não se trata de uma cena exterior, mas de uma travessia interna. A sobreposição de cores — entre quentes e frias — cria uma sensação de conflito vibrante, enquanto os espirais e linhas curvas parecem simbolizar pensamento, tormento ou atração.


Mesmo sem dizer explicitamente “obsessores”, o trabalho lida com a ideia de forças que nos cercam e influenciam — visíveis ou não. Essa abordagem encontra eco em artistas como Arthur Bispo do Rosário, cuja produção traduz a experiência espiritual e delirante em formas têxteis e catalogação ritualizada; ou em Anselm Kiefer, que explora o peso da história e da mitologia em superfícies densas e espiritualmente carregadas. Também há algo de Egon Schiele e Francis Bacon — no modo como o corpo é tensionado por energias invisíveis —, mas aqui com uma paleta mais lúdica, que mistura o sofrimento à vitalidade.


No Brasil, essa linha entre o sagrado e o psíquico aparece com força em Tunga e Farnese de Andrade — artistas que investigam os fantasmas internos e a materialidade da fé. Em ambos, o espiritual não é dogma, mas presença inquieta.


O meu trabalho dialoga com esse mesmo território: a fronteira entre o espiritual e o psicológico, entre o corpo e o ambiente que o habita. As cores intensas lembram estados alterados de percepção, e o uso de colagem acrescenta a sensação de fragmento — como se a própria identidade estivesse sendo reconstruída após a influência dessas forças externas.


É uma obra que fala sobre absorver e resistir. Sobre estar cercado — mas ainda em pé.

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