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Mostrando postagens de setembro, 2025

Capítulo 1 – Poético-Místico: O Cume e a Promessa

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  Capítulo 1 – Poético-Místico: O Cume e a Promessa O vento no alto do Monte Serrat não é apenas brisa; é oração que passa pelos ossos. Você sente o peso de cada degrau subido, como se carregasse junto culpas, esperanças e bilhetes de loteria ainda não sorteados. A cidade abaixo pulsa como coração distante, e o mar reflete o sol que parece iluminar só você. A Senhora observa, paciente, rindo suavemente de promessas impossíveis e desejos de fortuna. O bilhete premiado se transforma em metáfora: ouro que não enriquece, riqueza que não se toca, dádiva que só existe na mente. E então, no silêncio que é só seu, a frase surge como mantra, oração e blasfêmia: “eu até acredito, mas não acredito nada.” É nesse instante que percebe: o milagre não seria o prêmio, nem a riqueza, nem a clausura — mas o ato de subir, de duvidar e de se entregar, ainda que sem fé completa. Um milagre que cabe no peito, invisível, mas eterno.

Crônica da mente em cacos

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 Crônica da mente em cacos A caneca de café ainda está quente na mesa, me olhando como se fosse cúmplice das minhas paranoias. O líquido escuro parece saber mais sobre mim do que eu mesmo. Cada gole é um mergulho rápido no abismo da mente — um abismo fragmentado, cheio de pedaços que nunca se encaixam. Minha arte nasce desse caos. Não pinto para organizar nada. Pinto para mostrar que as rachaduras existem, que a cabeça racha junto com a cidade, que a rua devolve em cacos aquilo que a mente já não sustenta. Catando vidros, cerâmicas, restos de plástico, eu me reconheço: sou feito de sobras. Às vezes me pergunto se a colagem que faço é uma tentativa de remendo ou apenas uma celebração da quebra. Talvez as duas coisas. A paranoia sopra no meu ouvido: “não vai dar certo, você nunca vai terminar, ninguém vai entender”. Eu rio sozinho, levanto a caneca de café, e respondo: “melhor assim, que não entendam, que vejam apenas o estilhaço refletido neles mesmos”. Minha mente é um ateliê onde ...

Crônica sem eternidade

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 Crônica sem eternidade Leonardo tinha seu pincel, sua obsessão, e uma mulher que acabou virando ícone: a Monalisa. Séculos depois, milhões de olhares atravessaram sua pele de tinta, como se ela fosse mais humana que nós. A obra sobreviveu ao tempo, ao pó, às guerras, às negociações em cifras que fariam corar qualquer rei antigo. Mas eu não sou Leonardo, nem trago embaixo do braço nenhuma Monalisa. O que faço não precisa atravessar quinhentos anos para justificar sua existência. Não quero ver meu trabalho empilhado em cofres, disputado por leiloeiros, vendido como quem vende um pedaço de glória. Aliás, duvido que daqui a meio milênio exista alguém para se importar com isso. A humanidade talvez já seja memória fossilizada em poeira cósmica. Não haverá seres para colecionar objetos, visitar estruturas, assinar jornais ou comentar sobre a aura de uma pintura. O culto à permanência perderá o sentido quando a própria espécie tiver se apagado. Meu trabalho, portanto, é para agora. Para o...