Crônica sem eternidade
Leonardo tinha seu pincel, sua obsessão, e uma mulher que acabou virando ícone: a Monalisa. Séculos depois, milhões de olhares atravessaram sua pele de tinta, como se ela fosse mais humana que nós. A obra sobreviveu ao tempo, ao pó, às guerras, às negociações em cifras que fariam corar qualquer rei antigo.
Mas eu não sou Leonardo, nem trago embaixo do braço nenhuma Monalisa. O que faço não precisa atravessar quinhentos anos para justificar sua existência. Não quero ver meu trabalho empilhado em cofres, disputado por leiloeiros, vendido como quem vende um pedaço de glória.
Aliás, duvido que daqui a meio milênio exista alguém para se importar com isso. A humanidade talvez já seja memória fossilizada em poeira cósmica. Não haverá seres para colecionar objetos, visitar estruturas, assinar jornais ou comentar sobre a aura de uma pintura. O culto à permanência perderá o sentido quando a própria espécie tiver se apagado.
Meu trabalho, portanto, é para agora. Para o instante do café, para a paranoia que conversa comigo de madrugada, para o olhar distraído de quem tropeça em um fragmento e reconhece a si mesmo. A durabilidade não é a eternidade: é o impacto breve, é o fragmento que corta, é o suspiro que muda a rota do dia.
Se Leonardo pintou para o futuro, eu crio para a urgência. Se a Monalisa sorri para a posteridade, minhas obras sorriem — ou gritam — apenas para o presente que ainda respira.

Comentários
Postar um comentário