Crônica da mente em cacos





 Crônica da mente em cacos


A caneca de café ainda está quente na mesa, me olhando como se fosse cúmplice das minhas paranoias. O líquido escuro parece saber mais sobre mim do que eu mesmo. Cada gole é um mergulho rápido no abismo da mente — um abismo fragmentado, cheio de pedaços que nunca se encaixam.


Minha arte nasce desse caos. Não pinto para organizar nada. Pinto para mostrar que as rachaduras existem, que a cabeça racha junto com a cidade, que a rua devolve em cacos aquilo que a mente já não sustenta. Catando vidros, cerâmicas, restos de plástico, eu me reconheço: sou feito de sobras.


Às vezes me pergunto se a colagem que faço é uma tentativa de remendo ou apenas uma celebração da quebra. Talvez as duas coisas. A paranoia sopra no meu ouvido: “não vai dar certo, você nunca vai terminar, ninguém vai entender”. Eu rio sozinho, levanto a caneca de café, e respondo: “melhor assim, que não entendam, que vejam apenas o estilhaço refletido neles mesmos”.


Minha mente é um ateliê onde até o silêncio faz barulho. Onde cada pincelada parece uma cicatriz, e cada colagem, um pensamento que se perdeu pelo caminho. Não quero cura, quero continuidade. Se estou fragmentado, que seja bonito, que seja arte.

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