crônica para um prédio demolido (com guaraná bem gelado, por favor)








Crônica para um prédio demolido
(com guaraná bem gelado, por favor)

Demoliram.
E foi lindo.
Sem aviso, sem cerimônia, sem homenagem.
O prédio caiu como deveria ter caído há anos:
com estardalhaço e poeira,
como um castelo de cartas feito de humilhações escolares,
professores medíocres e corredores abafados.

Ali, onde ensaiei sorrisos falsos
e um amor platônico que nunca se soube retribuir,
resta agora o vazio —
um terreno baldio sujo,
com pedaços de cimento como fósseis da minha adolescência.

A escada do segundo andar
ainda aponta para o céu como quem não aceita o fim.
Uma lousa branca permanece,
fixada na parede de nada,
como se esperasse que alguém escrevesse, enfim,
algo digno.

O outdoor desbotado me presenteia
com o que mais gosto em publicidade:
o fracasso.
Rostos mutilados por sol e vento,
palavras que se foram deixando só
sílabas órfãs,
ofertas que não valem mais.

Ali, naquele descampado feio e necessário,
descubro o que é libertação:
ver ruir, tijolo por tijolo,
um capítulo forçado da minha história.

Não houve festa.
Mas houve pipoca imaginária
e um copo de guaraná Antártica bem gelado
nos meus pensamentos.
Brindei sozinho.
Sorri muito.
E fui embora leve.


 

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