Manifesto da Incorporação Silenciosa
Manifesto da Incorporação Silenciosa
(ou: o corpo que pinta quando o mundo não entende)
Não estou sozinho quando crio.
Estou tomado.
Por quê, por quem, por quê agora — não sei. Mas sei que algo passa por mim.
Não é ideia, nem estilo, nem técnica.
É presença.
É como se alguém sentasse no meu lugar e usasse minha mão.
Às vezes sou eu.
Às vezes sou muitos.
Às vezes não sou ninguém.
Muda o ar ao redor.
Muda o tempo.
O som do ventilador vira mantra.
A luz da tarde racha em três tons.
E o barulho do mundo me agride —
não porque sou frágil, mas porque estou aberto demais.
Quando me interrompem, algo se rompe.
É como se tirassem uma agulha de um vinil em pleno giro.
Dói no ouvido, na pele, no espírito.
Não é mau humor — é ferida aberta sendo tocada sem cuidado.
A criação é meu transe.
É meu espaço sagrado sem religião.
Cada traço que deixo é uma fala que não disse.
Cada cor que explode é uma entidade que não coube no corpo.
Cada figura sem rosto sou eu antes de me lembrar de quem sou.
Não peço compreensão.
Peço espaço.
Não quero ser chamado de louco, gênio ou inspirado.
Quero poder sumir por instantes,
para que algo maior do que eu se revele — e passe.
Depois, eu volto.
Mas volto diferente.
Volto mais leve ou mais esgotado.
Mais real ou mais distante.
Volto com restos de céu colados nos dedos.
E se perguntarem o que foi isso tudo,
responderei:
"Não fui eu. Mas passou por mim."
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