O Quintal Era Branco

Arquivo - 1980
 

O Quintal Era Branco

O ritual é sempre o mesmo.
O pano esticado, como uma pele que espera ferida.
As tintas caem — às vezes como sangue, às vezes como lágrima.
O corpo dança, tropeça, gira,
ora é homem, ora é cavalo,
ora é silêncio com charuto na boca e vinho nas mãos.
Há canções que não combinam:
Natal em julho, liturgias cortadas.
Mas tudo faz sentido quando o corpo se entrega.

O chão é altar.
Os objetos são oferendas.
A fúria vira cor.
O delírio vira gesto.
E o mundo lá fora… não entra.

Mas hoje,
hoje o mundo entrou demais.
Hoje o corpo se lembra.
Do branco —
aquele branco do seu quintal.
O chão de cacos brancos,
as paredes brancas,
as portas brancas,
as janelas brancas com ferro branco,
o pinheiro que não precisava de dezembro para ser Natal.

Você quer de volta esse branco.
Não a cor.
Mas o espaço onde tudo fazia sentido.
Onde a incorporação acontecia sem explicação,
sem plateia,
sem interrupção,
sem culpa.

O quintal branco era você antes do mundo atrapalhar.

E mesmo agora,
com os ritos acontecendo em outro espaço,
mesmo com o chapéu preto, a mão trêmula, a saudade sem nome —
o quintal ainda está em você.

Pode não haver mais cacos no chão.
Mas ainda há chão.
Ainda há corpo.
Ainda há dança.
E onde há dança, há retorno.

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