O Último Amigo Imaginário



                                                                 imagem gerada por IA
 

O Último Amigo Imaginário

Saio de casa como quem foge de um incêndio sem chamas.
O corpo anda, mas o resto se arrasta.
Lanço mensagens para mim mesmo, porque não há retorno de ninguém.
Talvez algum invisível leia.
Talvez o vento repita em segredo.

Já tive amigos — muitos.
Inventados, imaginários, perfeitos.
Heróis com falas de dublagem, rostos de fita VHS, músculos e ética de filme de aventura.
Eles me protegiam, me batiam, me puxavam pelo braço em cenas que nunca existiram fora da minha cabeça.
Mas à medida que eu envelheci, eles também envelheceram.
Ganharam rugas, desacreditaram da missão, ficaram cansados.
Um por um… morreram.
Sumiram como figurantes que perdem o contrato com a vida.

Ingratos.
Me deixaram aqui, sozinho.
Só restou o menorzinho — aquele que não sabe ainda da dor do tempo.
Ele me segue em silêncio.
Não fala muito. Mas olha pra mim como se eu fosse um planeta inteiro.

No caminho, recolho fragmentos como quem coleciona sinais:
papéis jogados, panfletos rasgados, cartões de lojas extintas, revistas com datas vencidas.
Tudo o que parece inútil, mas me escolhe.
Carrego como amuletos.

Às vezes, não quero sair. Me arrasto.
Outras vezes, algo me empurra — e vou longe.
Ando tanto que esqueço que sou feito de corpo.
Mas o problema não é a ida.
O problema é sempre a volta.

Voltar é lembrar que nada mudou.
Que a casa ainda está muda.
Que os mortos imaginários não escreveram cartas.
Que o amigo mais novo também começa a se calar.

Voltar é reaprender a ser só.
E toda vez que retorno, uma parte de mim fica pelo caminho.
Talvez para nunca mais voltar.

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