O Dedo, o Charuto e o Silêncio do Hotel
O Dedo, o Charuto e o Silêncio do Hotel
Metade menino, metade homem — e no fundo, talvez metade Danny, metade Jack.
Na foto que se parte ao meio, não há tempo certo.
A criança sorri, mas não avança.
O adulto traga o tempo como se fosse charuto: lento, ardente, quase eterno.
Enquanto um se embriaga de vida, o outro já sussurra coisas para o espelho —
como Danny, com o dedo, antes de o pai surtar de vez nos corredores do Overlook.
Quem é pior?
O que fala com fantasmas?
Ou o que escuta seus conselhos?
A trilha toca ao fundo, tensa como um presságio.
Cordas dissonantes. Batidas cardíacas.
O hotel está vazio, mas o eco nunca para.
Cada passo ressoa como se alguém ainda estivesse ali.
Talvez você. Talvez eu.
Você mastiga a infância entre os dentes, como se ela fosse charuto:
uma lembrança enrolada em folhas secas e memórias queimadas.
O espelho devolve um rosto rachado —
e, se observar com atenção, verá no reflexo a criança acenando,
presa para sempre do lado de lá.
Talvez ainda haja tempo de ouvi-la.
Talvez o dedo ainda aponte o caminho.
Ou talvez não.
Talvez já seja tarde.
Redrum. Redrum.
Silêncio.
Entre o Charuto e o Sussurro: A Criança, o Espelho e a Loucura
Por Olegário Monteiro
Há fotos que não são retratos, são portais.
A imagem partida — metade criança, metade homem — guarda mais do que memórias: é um eco. Um grito que viajou pelo tempo e se alojou no centro do peito. Um aviso tardio vindo de um hotel assombrado por fantasmas que talvez nunca tenham existido, a não ser dentro da cabeça de um homem à beira do colapso.
Na trilha de O Iluminado, há uma faixa que arrepia o tempo.
"Utrenja – Ewangelia (Excerpt)", de Penderecki, não é apenas música — é um estado mental. Uma missa soterrada sob ruídos. Um lamento religioso que se contorce entre o sagrado e o profano, como se a fé tivesse sido capturada em meio ao caos de um pesadelo.
O som começa como um sussurro antigo, uma oração desfigurada.
Depois, irrompe em gritos de cordas e alaridos de almas —
como se os corredores do Overlook ganhassem voz.
E nessa atmosfera de reverberações e corredores infinitos,
a foto parte-se ao meio.
De um lado, o homem com chapéu e charuto — sóbrio ou perdido, é difícil saber.
Do outro, o menino com o sorriso torto, talvez antes do mundo se mostrar insano.
E o mais inquietante: ambos olham para frente, como se enxergassem quem os olha.
Ou como se pedissem socorro.
Danny falava com o dedo. Eu falo com o celular.
A frase surge com o peso de um diagnóstico.
Se Danny ainda sussurra "Redrum", nós digitamos frases sem parar.
Fingimos controle enquanto nos afogamos em vozes internas.
A insanidade, agora, é digital.
E quem escuta talvez esteja mais perdido do que quem fala.
Penderecki sabia disso.
Sua música não é trilha.
É delírio.
É a escada sonora que leva o homem da lucidez à loucura,
e a criança à compreensão de que o mundo pode ser cruel mesmo antes de ser entendido.
A foto, enfim, não é lembrança — é premonição.
O tempo não avança. O tempo gira.
E volta. Sempre volta.
Com o mesmo sussurro ao fundo,
a mesma criança no espelho,
e a mesma música de igreja deformada nos lembrando:
nossa mente é o verdadeiro hotel assombrado.
E nem sempre há saída.

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