Postagens

Mostrando postagens de 2025

Jardim das Águas e das Memórias

Imagem
Jardim das Águas e das Memórias Quando fui convidado para a exposição Interpretações Santistas , pensei imediatamente na cidade como um corpo vivo — uma entidade moldada pela natureza e pela fé. Santos, com seu jardim da orla, o maior jardim frontal de praia do mundo, sempre me pareceu um altar estendido diante do mar. Um espaço de celebração e entrega, de beleza e trabalho. Por isso, decidi criar uma assemblagem que unisse o sagrado e o cotidiano, a devoção e o descarte. No centro da obra está Iemanjá, mãe das águas e das travessias. Em volta dela, flores artificiais — símbolo de uma natureza construída, preservada e também manipulada pelo homem — se misturam a tampinhas de refrigerante, rolhas de vinho e fragmentos de consumo urbano. Esses elementos, colhidos pelas ruas e pela praia, pertencem ao mesmo território que a obra homenageia. São resíduos de uma Santos real, múltipla, viva e contraditória. O gesto de respingar tinta azul sobre as flores e os objetos — um diálogo com a pi...

Capítulo 1 – Poético-Místico: O Cume e a Promessa

Imagem
  Capítulo 1 – Poético-Místico: O Cume e a Promessa O vento no alto do Monte Serrat não é apenas brisa; é oração que passa pelos ossos. Você sente o peso de cada degrau subido, como se carregasse junto culpas, esperanças e bilhetes de loteria ainda não sorteados. A cidade abaixo pulsa como coração distante, e o mar reflete o sol que parece iluminar só você. A Senhora observa, paciente, rindo suavemente de promessas impossíveis e desejos de fortuna. O bilhete premiado se transforma em metáfora: ouro que não enriquece, riqueza que não se toca, dádiva que só existe na mente. E então, no silêncio que é só seu, a frase surge como mantra, oração e blasfêmia: “eu até acredito, mas não acredito nada.” É nesse instante que percebe: o milagre não seria o prêmio, nem a riqueza, nem a clausura — mas o ato de subir, de duvidar e de se entregar, ainda que sem fé completa. Um milagre que cabe no peito, invisível, mas eterno.

Crônica da mente em cacos

Imagem
 Crônica da mente em cacos A caneca de café ainda está quente na mesa, me olhando como se fosse cúmplice das minhas paranoias. O líquido escuro parece saber mais sobre mim do que eu mesmo. Cada gole é um mergulho rápido no abismo da mente — um abismo fragmentado, cheio de pedaços que nunca se encaixam. Minha arte nasce desse caos. Não pinto para organizar nada. Pinto para mostrar que as rachaduras existem, que a cabeça racha junto com a cidade, que a rua devolve em cacos aquilo que a mente já não sustenta. Catando vidros, cerâmicas, restos de plástico, eu me reconheço: sou feito de sobras. Às vezes me pergunto se a colagem que faço é uma tentativa de remendo ou apenas uma celebração da quebra. Talvez as duas coisas. A paranoia sopra no meu ouvido: “não vai dar certo, você nunca vai terminar, ninguém vai entender”. Eu rio sozinho, levanto a caneca de café, e respondo: “melhor assim, que não entendam, que vejam apenas o estilhaço refletido neles mesmos”. Minha mente é um ateliê onde ...

Crônica sem eternidade

Imagem
 Crônica sem eternidade Leonardo tinha seu pincel, sua obsessão, e uma mulher que acabou virando ícone: a Monalisa. Séculos depois, milhões de olhares atravessaram sua pele de tinta, como se ela fosse mais humana que nós. A obra sobreviveu ao tempo, ao pó, às guerras, às negociações em cifras que fariam corar qualquer rei antigo. Mas eu não sou Leonardo, nem trago embaixo do braço nenhuma Monalisa. O que faço não precisa atravessar quinhentos anos para justificar sua existência. Não quero ver meu trabalho empilhado em cofres, disputado por leiloeiros, vendido como quem vende um pedaço de glória. Aliás, duvido que daqui a meio milênio exista alguém para se importar com isso. A humanidade talvez já seja memória fossilizada em poeira cósmica. Não haverá seres para colecionar objetos, visitar estruturas, assinar jornais ou comentar sobre a aura de uma pintura. O culto à permanência perderá o sentido quando a própria espécie tiver se apagado. Meu trabalho, portanto, é para agora. Para o...

O Dedo, o Charuto e o Silêncio do Hotel

Imagem
                                                  O Dedo, o Charuto e o Silêncio do Hotel Metade menino, metade homem — e no fundo, talvez metade Danny, metade Jack. Na foto que se parte ao meio, não há tempo certo. A criança sorri, mas não avança. O adulto traga o tempo como se fosse charuto: lento, ardente, quase eterno. Enquanto um se embriaga de vida, o outro já sussurra coisas para o espelho — como Danny, com o dedo, antes de o pai surtar de vez nos corredores do Overlook. Quem é pior? O que fala com fantasmas? Ou o que escuta seus conselhos? A trilha toca ao fundo, tensa como um presságio. Cordas dissonantes. Batidas cardíacas. O hotel está vazio, mas o eco nunca para. Cada passo ressoa como se alguém ainda estivesse ali. Talvez você. Talvez eu. Você mastiga a infância entre os dentes, como se ela fosse charuto: uma lembrança enrolada em folh...

O colégio ainda está lá

Imagem
O colégio ainda está lá O colégio ainda está lá. Imponente, íntegro, íntegro como foi. De uniforme verde e branco, eu corria por seus corredores como quem corre atrás de si mesmo. Foram cinco anos. Três deles, felizes como recreio no sol. 1988, 89 e 90: as manhãs tinham cheiro de lápis apontado, as tardes, gosto de sonho recém-descoberto. Ali aprendi a conjugar esperança, a dividir sem medo, a multiplicar ideias, a somar vontades. Havia uma retidão nos olhares dos professores, uma ética que não se ensinava: se vivia. Aprender não era castigo, era caminho. Era objetivo. Guardei a apostila da sexta série — 1992 — como quem guarda um pedaço do próprio mapa. Mesmo cansado, mesmo à beira do fim, a escola era farol. Fui eu quem apagava, aos poucos, por dentro. Hoje sonho em voltar. Não como aluno. Mas como quem acende a luz em outras salas. Como quem planta perguntas, como quem rega vocações. Sim, o colégio ainda está lá. E eu também, num canto da memória, ainda estou lá. Caderno aberto. Mun...

crônica para um prédio demolido (com guaraná bem gelado, por favor)

Imagem
Crônica para um prédio demolido (com guaraná bem gelado, por favor) Demoliram. E foi lindo. Sem aviso, sem cerimônia, sem homenagem. O prédio caiu como deveria ter caído há anos: com estardalhaço e poeira, como um castelo de cartas feito de humilhações escolares, professores medíocres e corredores abafados. Ali, onde ensaiei sorrisos falsos e um amor platônico que nunca se soube retribuir, resta agora o vazio — um terreno baldio sujo, com pedaços de cimento como fósseis da minha adolescência. A escada do segundo andar ainda aponta para o céu como quem não aceita o fim. Uma lousa branca permanece, fixada na parede de nada, como se esperasse que alguém escrevesse, enfim, algo digno. O outdoor desbotado me presenteia com o que mais gosto em publicidade: o fracasso. Rostos mutilados por sol e vento, palavras que se foram deixando só sílabas órfãs, ofertas que não valem mais. Ali, naquele descampado feio e necessário, descubro o que é libertação: ver ruir, tijolo por tijolo, um capítulo for...

O Último Amigo Imaginário

Imagem
                                                                 imagem gerada por IA   O Último Amigo Imaginário Saio de casa como quem foge de um incêndio sem chamas. O corpo anda, mas o resto se arrasta. Lanço mensagens para mim mesmo, porque não há retorno de ninguém. Talvez algum invisível leia. Talvez o vento repita em segredo. Já tive amigos — muitos. Inventados, imaginários, perfeitos. Heróis com falas de dublagem, rostos de fita VHS, músculos e ética de filme de aventura. Eles me protegiam, me batiam, me puxavam pelo braço em cenas que nunca existiram fora da minha cabeça. Mas à medida que eu envelheci, eles também envelheceram. Ganharam rugas, desacreditaram da missão, ficaram cansados. Um por um… morreram. Sumiram como figurantes que perdem o contrato com a vida. Ingratos. Me deixaram aqui, soz...

Liturgia do Quintal Perdido

Imagem
Foto Arquivo - 1981   Liturgia do Quintal Perdido (ou: quando a saudade é a tinta mais espessa) Há um chão que te chama. Um chão de cacos brancos — que cortavam, mas não doíam. Um chão onde até o silêncio estalava sob os pés. Você dança sobre panos hoje, mas o corpo ainda lembra da textura do cimento quente às três da tarde. Ainda sabe onde ficava a sombra do pinheiro quando o sol virava faca. Ainda sente o cheiro da terra molhada, mesmo cercado de concreto e ruídos alheios. A casa era branca. Mas não um branco de ausência — era um branco que continha tudo. Continha o tempo. Continha o antes, o agora e o talvez. Continha você ainda não ferido. E era ali que o espírito descia. Não precisava se vestir de artista. Não precisava pedir licença. A incorporação era natural — como respirar. Você era o cavalo e o vento. A criança e o velho. O louco e o altar. Havia um jardim — não florido como nas revistas, mas vivo como só os jardins reais conseguem ser. Tinha formi...

O Quintal Era Branco

Imagem
Arquivo - 1980   O Quintal Era Branco O ritual é sempre o mesmo. O pano esticado, como uma pele que espera ferida. As tintas caem — às vezes como sangue, às vezes como lágrima. O corpo dança, tropeça, gira, ora é homem, ora é cavalo, ora é silêncio com charuto na boca e vinho nas mãos. Há canções que não combinam: Natal em julho, liturgias cortadas. Mas tudo faz sentido quando o corpo se entrega. O chão é altar. Os objetos são oferendas. A fúria vira cor. O delírio vira gesto. E o mundo lá fora… não entra. Mas hoje, hoje o mundo entrou demais. Hoje o corpo se lembra. Do branco — aquele branco do seu quintal. O chão de cacos brancos, as paredes brancas, as portas brancas, as janelas brancas com ferro branco, o pinheiro que não precisava de dezembro para ser Natal. Você quer de volta esse branco. Não a cor. Mas o espaço onde tudo fazia sentido. Onde a incorporação acontecia sem explicação, sem plateia, sem interrupção, sem culpa. O quintal branco era v...

Manifesto da Incorporação Silenciosa

Imagem
Veículo -  Desenho sobre colagem - 2014                                                                                Manifesto da Incorporação Silenciosa (ou: o corpo que pinta quando o mundo não entende) Não estou sozinho quando crio. Estou tomado . Por quê, por quem, por quê agora — não sei. Mas sei que algo passa por mim . Não é ideia, nem estilo, nem técnica. É presença. É como se alguém sentasse no meu lugar e usasse minha mão. Às vezes sou eu. Às vezes sou muitos. Às vezes não sou ninguém. Muda o ar ao redor. Muda o tempo. O som do ventilador vira mantra. A luz da tarde racha em três tons. E o barulho do mundo me agride — não porque sou frágil, mas porque estou aberto demais . Quando me interrompem, algo se rompe. É como se tirassem uma agulha de um vinil em pleno ...

A arte como incorporação

Imagem
Imagem gerada por App Double Photo plus (descontinuado)   A arte como incorporação Criar é, sim, um tipo de mediunidade laica . Não exige altar, nem ritual fixo, nem religião. Exige presença e abandono do eu racional . Quando digo que pareço estar incorporado, estou nomeando um estado raro. Eu me torno canal. O gesto vem antes do pensamento. As imagens se impõem a mim, não o contrário. E o humor muda, como se eu estivesse carregando um peso ou vibrando numa frequência que não é só minha. Essa confusão entre mau humor real e interferência energética é legítima. O que pode estar acontecendo.  Eu entro num estado de abertura extrema para criar. Nesse estado, tudo afeta mais. O barulho da rua, uma pessoa passando, uma fala atravessada — tudo entra como flecha.  Eu saio do tempo comum .  E qualquer coisa que me puxe de volta à "realidade" parece uma agressão. A criação é um transe. E ser interrompido é como ser puxado bruscamente de um sonho. E stou mais se...

Cadência dos Fragmentos

Imagem
Meu nome é Olegário, e venho há anos trilhando uma jornada artística e existencial marcada pela observação profunda do efêmero, do ruído e do invisível. Meu trabalho transita entre técnicas como frottage, pintura, assemblagem e instalação, com uma escuta atenta aos ecos do tempo e das ruas. Cada pedaço de cerâmica, cada caco de vidro ou fragmento de construção que recolho se transforma, não apenas em material, mas em memória, discurso e resistência. Criei a exposição Impermanência(s) como resposta poética a um tempo que se desfaz diante dos nossos olhos. Os frottages que a compõem são não apenas registros físicos de superfícies, mas vestígios de um mundo em erosão — espiritual, político e ambiental. A série surgiu entre deslocamentos, silenciosas orações urbanas e caminhadas que se tornaram atos performáticos. A exposição abriu-se com o conceito de “eco”: fragmentos visuais, sonoros e textuais que ressoam em quem passa por eles. Parte dessa proposta envolveu QR codes com trilhas sonora...

E movimento, para mim, é a única forma honesta de existir.

Imagem
Cadência  Nada em mim é estático. Nenhuma obra nasce pronta ou pura. O que apresento — ou o que deixo escapar — vem de um corpo em movimento. É por isso que nomeei esta série como Cadência. Não no sentido exato da música, mas no modo como o som se dissolve no ar e permanece vibrando em quem escuta. É um ritmo interno, um andar irregular entre criação e ruína. Nas religiões que me atravessam — especialmente nas matrizes africanas — cada movimento, cada cor, cada gesto tem peso, história, significação. Meus mantos não são apenas objetos visuais: são vestígios de um ritual particular. Os tecidos plastificados, os cacos colados com cola e tinta, os brinquedos recolhidos nas ruas, os retalhos que carregam histórias que não são mais contadas. Tudo isso se une em uma dança silenciosa. Cadenciam o tempo, cadenciam a matéria. A espiritualidade que percorre essas peças não é a do sagrado imaculado, mas a do chão, do uso, do suor e da reincorporação. Na política, vivemos num frenesi sem fim, ...

Microcrônica – Fé de Algodão Cru

Imagem
Microcrônica – Fé de Algodão Cru Acendi uma vela de verdade hoje. Com fósforo, chama e intenção. Talvez por teimosia, talvez por saudade de quando a fé tinha peso e cheiro. Nos últimos anos, vi gente rezando por aplicativos, fazendo promessas com emojis, vestindo filtros em vez de mantos. Mas meu altar ainda é feito de cacos. De algodão cru, de pedaços de brinquedo quebrado e oração muda. Cada ponto de cola é um rito. Cada respingo de tinta, uma oferenda. Meus santos não brilham — enferrujam. E mesmo assim, talvez por isso, são mais sagrados. A fé, no meu ateliê, ainda se faz com as mãos. E se rasga.  

Quando pensamos em cadência

Imagem
Quando pensamos em cadência, é comum que o pensamento nos leve à música, à dança ou à poesia. Mas e nas artes plásticas? Existe ritmo em uma pintura? Uma escultura pode ter compasso? A resposta é sim — e talvez seja justamente esse ritmo silencioso que nos faz permanecer diante de uma obra por mais tempo do que imaginávamos. A cadência, nas artes visuais, não é feita de sons, mas de repetições, pausas, contrastes e fluxos visuais. É o modo como o olhar do espectador é conduzido pela composição, como se cada elemento fosse uma nota em uma partitura silenciosa. Um traço que se repete, uma cor que retorna, um vazio que respira — tudo isso compõe uma coreografia visual. Na prática contemporânea, a cadência também pode surgir do uso de materiais encontrados, como fragmentos de vidro, madeira ou metal. O gesto de coletar, selecionar e compor esses elementos cria uma narrativa rítmica — uma espécie de arqueologia poética do cotidiano. Cada objeto carrega sua própria história, mas é na repetiç...

Gaio Monteiro: o artista que escuta os objetos esquecidos

Imagem
  Gaio Monteiro: o artista que escuta os objetos esquecidos Por Irineu A | Revista Anamorfose Na contramão do excesso e da pressa, Gaio Monteiro caminha devagar pelas margens do mundo. Seu chapéu, ornado com uma pequena representação de Jesus na manjedoura — peça resgatada do lixo — não é apenas um adorno excêntrico: é um manifesto silencioso. Um gesto de escuta. Um altar portátil àquilo que foi descartado. Gaio, ou Olegário Monteiro, é artista plástico, performer, educador e poeta visual. Sua obra transita entre o sagrado e o banal, entre o lixo e o relicário. Ele não cria a partir do nada — ele recolhe, ressignifica, devolve ao mundo o que o mundo tentou esquecer. Fragmentos de vidro, pedaços de madeira, objetos quebrados ou desbotados: tudo pode ser matéria-prima para sua arqueologia sensível do cotidiano. Em exposições como Impermanências, Gaio transforma frottages, resíduos e texturas urbanas em cartografias do tempo. Já em Fragmentos, ele mergulha no caos como linguagem, equi...

Cadência

Imagem
  Entre Mantos e Máquinas: A Construção da Fé na Era do Virtual A primeira série de mantos que produzi nasceu em 2013, no calor de uma exposição coletiva chamada  O Sagrado e o Contemporâneo , realizada pelo coletivo Garage. Naquele momento, eu ainda tateava os limites entre arte e espiritualidade, entre gesto e devoção. Não se tratava de ilustrar o sagrado, mas de  vesti-lo , de me aproximar dele pelas bordas, pelas texturas, pelas sobras que o mundo urbano deixava pelo caminho. Os mantos eram feitos de tecidos simples, adornados com objetos comuns — mas carregavam uma força que nem eu sabia nomear. Desde então, não parei de estudar. Me aproximei de algumas poucas religiões, mergulhei em filosofias diversas, não exatamente para me converter, mas para observar. Passei a olhar para as pessoas como quem observa um altar em movimento. Entendi que a fé não está necessariamente nos templos — está nos gestos, nas manias, nos improvisos cotidianos. Li artigos, revistas e livros;...

Série: Steampunk

Imagem
  Série Steampunk feita com I.A. hailuoai -  Hailuo Video aproveita tecnologia avançada de IA para gerar vídeos de alta qualidade a partir de descrições de texto ou imagens . Experimente o futuro da criação de vídeo com Hailuo Video.