Quando pensamos em cadência
Quando pensamos em cadência, é comum que o pensamento nos leve à música, à dança ou à poesia. Mas e nas artes plásticas? Existe ritmo em uma pintura? Uma escultura pode ter compasso? A resposta é sim — e talvez seja justamente esse ritmo silencioso que nos faz permanecer diante de uma obra por mais tempo do que imaginávamos.
A cadência, nas artes visuais, não é feita de sons, mas de repetições, pausas, contrastes e fluxos visuais. É o modo como o olhar do espectador é conduzido pela composição, como se cada elemento fosse uma nota em uma partitura silenciosa. Um traço que se repete, uma cor que retorna, um vazio que respira — tudo isso compõe uma coreografia visual.
Na prática contemporânea, a cadência também pode surgir do uso de materiais encontrados, como fragmentos de vidro, madeira ou metal. O gesto de coletar, selecionar e compor esses elementos cria uma narrativa rítmica — uma espécie de arqueologia poética do cotidiano. Cada objeto carrega sua própria história, mas é na repetição e na justaposição que eles ganham voz coletiva.
Mais do que um recurso estético, a cadência nas artes plásticas é uma forma de resistência ao tempo acelerado. Ela nos convida a desacelerar, a observar com atenção, a entrar no compasso da obra. Em um mundo de estímulos frenéticos, talvez seja esse o maior gesto político da arte: nos devolver o tempo do olhar.
Cadência nasceu do erro, da perda de uma letra — ou do ganho de um novo ritmo. A palavra decadência foi cortada ao vivo, diante de uma parede branca, e o que restou foi cadência. Não um fim, mas um novo compasso.
Meus trabalhos não são obras isoladas: são partes de uma história só, como se cada pedaço encontrado, cada papel marcado, cada tecido performado fosse um plano de sequência de um filme que nunca termina — ou que insiste em recomeçar com outras falas, outros ruídos.
Não conto uma história com começo, meio e fim. Eu recorto e repito. Eu mudo o curso do que já era trágico. Eu devolvo à superfície o que foi enterrado. O que se vê aqui é apenas mais um capítulo de um filme onde os cacos continuam a falar. E a cadência segue, mesmo quando tudo parece parado.

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