Cadência


 

Entre Mantos e Máquinas: A Construção da Fé na Era do Virtual


A primeira série de mantos que produzi nasceu em 2013, no calor de uma exposição coletiva chamada O Sagrado e o Contemporâneo, realizada pelo coletivo Garage. Naquele momento, eu ainda tateava os limites entre arte e espiritualidade, entre gesto e devoção. Não se tratava de ilustrar o sagrado, mas de vesti-lo, de me aproximar dele pelas bordas, pelas texturas, pelas sobras que o mundo urbano deixava pelo caminho. Os mantos eram feitos de tecidos simples, adornados com objetos comuns — mas carregavam uma força que nem eu sabia nomear.

Desde então, não parei de estudar. Me aproximei de algumas poucas religiões, mergulhei em filosofias diversas, não exatamente para me converter, mas para observar. Passei a olhar para as pessoas como quem observa um altar em movimento. Entendi que a fé não está necessariamente nos templos — está nos gestos, nas manias, nos improvisos cotidianos. Li artigos, revistas e livros; vasculhei centenas de imagens, obras de arte de todas as épocas, de todos os estilos. Como um andarilho visual, percorri os corredores do barroco ao conceitual, dos ex-votos à arte povera. Queria entender como o humano lida com o invisível.

Com o tempo, percebi algo que me inquieta até hoje: a automatização da fé. Vi pessoas que antes acendiam velas com as mãos agora clicando em ícones de velas virtuais. Há aplicativos que rezam por você, calendários de santos em formato push notification, rituais encurtados por falta de tempo ou, talvez, por falta de desejo real de estar. Já não se ajoelha: arrasta-se o dedo. Já não se doa: compartilha-se uma imagem. Há quem diga que é evolução. Para mim, é distanciamento. Um esvaziamento gradual do corpo nos ritos.

Não estou aqui para julgar quem reza pela tela. Mas minha obra — especialmente os mantos — nasce da fricção entre o tátil e o etéreo. Da presença do corpo no espaço. Cada peça carrega não só cola, tinta e fragmentos: carrega também suor, cansaço, escolha, ritmo. A fé que proponho nesses trabalhos não é dogmática. É corpórea. É a fé que se faz com as mãos. Que se gasta. Que se rasga. Que pesa.

A espiritualidade que procuro não é a da promessa, mas a da presença. E talvez seja esse o ponto: estar presente. O manto, para mim, é um chamado. Um aviso de que o sagrado ainda pode ser construído com restos, com paciência, com silêncio — e com um pouco de barulho também. Ele não precisa de servidor. Precisa de chão.

Essa construção continua. Em cada nova série, em cada novo objeto que encontro pelas ruas, em cada livro que releio. Porque a fé, assim como a arte, não é uma resposta pronta. É uma pergunta que nunca se cala. E que, às vezes, se veste.


Cadência 

Nada em mim é estático. Nenhuma obra nasce pronta ou pura. O que apresento — ou o que deixo escapar — vem de um corpo em movimento. É por isso que nomeei esta série como Cadência. Não no sentido exato da música, mas no modo como o som se dissolve no ar e permanece vibrando em quem escuta. É um ritmo interno, um andar irregular entre criação e ruína.

Nas religiões que me atravessam — especialmente nas matrizes africanas — cada movimento, cada cor, cada gesto tem peso, história, significação. Meus mantos não são apenas objetos visuais: são vestígios de um ritual particular. Os tecidos plastificados, os cacos colados com cola e tinta, os brinquedos recolhidos nas ruas, os retalhos que carregam histórias que não são mais contadas. Tudo isso se une em uma dança silenciosa. Cadenciam o tempo, cadenciam a matéria. A espiritualidade que percorre essas peças não é a do sagrado imaculado, mas a do chão, do uso, do suor e da reincorporação.

Na política, vivemos num frenesi sem fim, onde tudo é rápido, descartável, calculado. Meus trabalhos recusam esse tempo. Eles demoram. Alguns levam meses para amadurecer — outros se fazem em dois dias de fúria e improviso. Mas nenhum deles obedece ao relógio do mercado. A arte, como a fé, precisa de tempo para assentar. Meu protesto não está em palavras de ordem, mas na recusa ao imediatismo. Eu crio no tempo da lentidão, da secagem da tinta, do respiro antes do corte, da escuta antes da palavra.

O pensamento, para mim, não é algo que vem antes da obra. Ele vem junto. Ele caminha ao lado. Cada pedaço recolhido da rua — um brinquedo quebrado, uma estatueta danificada, um retalho de lembrança — me convida a pensar o que somos enquanto humanos. A cadência das nossas vidas é feita de repetição e ruptura. Nascemos, crescemos, quebramos, tentamos nos colar. A arte que faço está nesse intervalo: entre o que sobrou e o que ainda pulsa.

Tenho insônia, manias com o tempo, com a ordem, com o som. Tudo isso entra na obra. Cada manto é um registro de um dia específico, de um humor específico. Às vezes há vinho, às vezes há silêncio absoluto. O charuto que acendo ou o chapéu que uso fazem parte do rito. O delírio é permitido — desde que guiado. Como em coreologia, tudo tem um motivo, mesmo o improviso. O que parece caos é escolha.

Se me perguntam por que "Cadência", digo que é porque nada é fixo, tudo caminha. Tudo vibra antes de desabar. A queda também é parte do compasso. Os mantos pesam. As esculturas por vezes se desfazem. O material apodrece. E eu deixo que isso aconteça. Porque essa exposição não é sobre permanência — é sobre movimento.

E movimento, para mim, é a única forma honesta de existir.

Delírio Roteirizado

O delírio, quando acolhido com método, torna-se motor criativo. Eu o vivo como um rito: há vinho tinto seco, há o chapéu — ora preto, ora branco, ora vermelho, em evocação às cores da Umbanda — e, em certos dias, o charuto ou o cachimbo do meu avô paterno. O ateliê vira terreiro, palco, zona de escuta e silêncio. Não é uma performance para o outro, mas para aquilo que em mim pede passagem.

O delírio sem forma é ruína. Mas ritualizado, ele se faz caminho. Não pinto em transe. Pinto em vigília. Há um rigor quase militar no tempo — sou neurótico com horários, pontual até o limite da obsessão. Mas é dentro dessa moldura que o indomável encontra forma. A loucura, quando respeitada, também pode ser disciplinada.

Passei por muitas “encarnações” estéticas. Foram tantas as fases, os testes, os erros — que em algum momento me perdi. Como quem se esquece do próprio rosto no espelho. Mas o extravio foi necessário. Hoje, olho para trás e percebo: tudo era ensaio. Tudo era germinação.

O que antes era caos, hoje é método. Cataloguei os experimentos. Encontrei o fio invisível que os une. E aos poucos, essa assinatura — que não está apenas no nome, mas no gesto, no ritmo, na fúria e na pausa — se fez reconhecível. Digo isso com cautela, pois sei que vivemos tempos de padronização e vigilância estética. Quando reconhecem algo meu, ainda atrelam a um precursor — como se o artista precisasse caber dentro de outra biografia para ser aceito.

Mas sigo. O ritual me âncora. E o delírio me empurra. Entre os dois, eu crio.

Do gesto ao corte: quando a arte me encontrou

O expressionismo abstrato sempre me atraiu. Havia algo naquele caos controlado de manchas, cores e impulsos que me lembrava o funcionamento do pensamento e do corpo. Mas foi ao ver Jackson Pollock em ação — dançando, pingando tinta, transformando o chão em tela e o corpo em pincel — que compreendi que a arte não é uma coisa, mas um acontecimento. E que esse acontecimento pode ser pura presença, pura respiração.

Mais tarde, quando me deparei com Cut Piece, de Yoko Ono, algo se rompeu dentro de mim: o corpo agora era o próprio campo de batalha. A entrega, o risco, o silêncio da artista diante das lâminas que vinham cortando sua roupa… era uma oração sem palavras. Ali compreendi que a arte podia ser ferida, doação, sacrifício, metáfora e política — tudo ao mesmo tempo.

Desde então, passei a ver a criação como gesto, como rito, como urgência. Meus trabalhos nasceram do chão — dos frottages, das texturas encontradas nas ruas, dos retalhos, dos cacos de uma cidade que também se desmancha. Passei a cortar, colar, rasgar, costurar, caminhar, ouvir. Minhas mãos viraram antenas; meu corpo, veículo.

E quanto à posteridade?

Se em 2125 alguém escavar o tempo em busca daquilo que fiz, encontrará apenas o vazio. O eco de um gesto. Não pretendo deixar nada. Talvez nem registros. A arte que faço é impermanente — como a fé, como a política, como o corpo, como a vida. Destruir o acervo não é apagar. É libertar. É devolver ao mundo o que sempre lhe pertenceu: o instante.


Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente

VERNISSAGE 05.07.2025 ll 15h às 18h II Entrada gratuíta

R. Frei Gaspar, 280 - Centro, São Vicente - SP

Telefone: (13) 3469-3520


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