Gaio Monteiro: o artista que escuta os objetos esquecidos






 

Gaio Monteiro: o artista que escuta os objetos esquecidos

Por Irineu A | Revista Anamorfose

Na contramão do excesso e da pressa, Gaio Monteiro caminha devagar pelas margens do mundo. Seu chapéu, ornado com uma pequena representação de Jesus na manjedoura — peça resgatada do lixo — não é apenas um adorno excêntrico: é um manifesto silencioso. Um gesto de escuta. Um altar portátil àquilo que foi descartado.

Gaio, ou Olegário Monteiro, é artista plástico, performer, educador e poeta visual. Sua obra transita entre o sagrado e o banal, entre o lixo e o relicário. Ele não cria a partir do nada — ele recolhe, ressignifica, devolve ao mundo o que o mundo tentou esquecer. Fragmentos de vidro, pedaços de madeira, objetos quebrados ou desbotados: tudo pode ser matéria-prima para sua arqueologia sensível do cotidiano.

Em exposições como Impermanências, Gaio transforma frottages, resíduos e texturas urbanas em cartografias do tempo. Já em Fragmentos, ele mergulha no caos como linguagem, equilibrando o abstrato e o figurativo com humor, crítica e lirismo. Inspirado por nomes como Arthur Bispo do Rosário, Gaio também performa — e nessas performances, o corpo se torna extensão do objeto, e o objeto, extensão da memória.

Mas talvez o que mais impressione em sua prática seja a coerência entre vida e obra. O chapéu com a manjedoura não é um figurino: é um gesto contínuo de atenção ao mundo. É arte que se vive antes de se mostrar. É fé no poder da transformação — não a milagrosa, mas a cotidiana, feita de mãos que recolhem, olhos que enxergam e corações que escutam.

Gaio Monteiro nos lembra que a beleza não está no novo, mas no reencontro. E que, às vezes, basta um objeto esquecido no lixo para reacender o sagrado e vem sendo reconhecido por sua abordagem sensível e comprometida com temas como consumo, descarte, sacralidade e tempo. Seu trabalho evoca referências como Arthur Bispo do Rosário, Joseph Beuys e o movimento objet trouvé, renovando essas tradições com linguagem própria.

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