E movimento, para mim, é a única forma honesta de existir.






Cadência 

Nada em mim é estático. Nenhuma obra nasce pronta ou pura. O que apresento — ou o que deixo escapar — vem de um corpo em movimento. É por isso que nomeei esta série como Cadência. Não no sentido exato da música, mas no modo como o som se dissolve no ar e permanece vibrando em quem escuta. É um ritmo interno, um andar irregular entre criação e ruína.

Nas religiões que me atravessam — especialmente nas matrizes africanas — cada movimento, cada cor, cada gesto tem peso, história, significação. Meus mantos não são apenas objetos visuais: são vestígios de um ritual particular. Os tecidos plastificados, os cacos colados com cola e tinta, os brinquedos recolhidos nas ruas, os retalhos que carregam histórias que não são mais contadas. Tudo isso se une em uma dança silenciosa. Cadenciam o tempo, cadenciam a matéria. A espiritualidade que percorre essas peças não é a do sagrado imaculado, mas a do chão, do uso, do suor e da reincorporação.

Na política, vivemos num frenesi sem fim, onde tudo é rápido, descartável, calculado. Meus trabalhos recusam esse tempo. Eles demoram. Alguns levam meses para amadurecer — outros se fazem em dois dias de fúria e improviso. Mas nenhum deles obedece ao relógio do mercado. A arte, como a fé, precisa de tempo para assentar. Meu protesto não está em palavras de ordem, mas na recusa ao imediatismo. Eu crio no tempo da lentidão, da secagem da tinta, do respiro antes do corte, da escuta antes da palavra.

O pensamento, para mim, não é algo que vem antes da obra. Ele vem junto. Ele caminha ao lado. Cada pedaço recolhido da rua — um brinquedo quebrado, uma estatueta danificada, um retalho de lembrança — me convida a pensar o que somos enquanto humanos. A cadência das nossas vidas é feita de repetição e ruptura. Nascemos, crescemos, quebramos, tentamos nos colar. A arte que faço está nesse intervalo: entre o que sobrou e o que ainda pulsa.

Tenho insônia, manias com o tempo, com a ordem, com o som. Tudo isso entra na obra. Cada manto é um registro de um dia específico, de um humor específico. Às vezes há vinho, às vezes há silêncio absoluto. O charuto que acendo ou o chapéu que uso fazem parte do rito. O delírio é permitido — desde que guiado. Como em coreologia, tudo tem um motivo, mesmo o improviso. O que parece caos é escolha.

Se me perguntam por que "Cadência", digo que é porque nada é fixo, tudo caminha. Tudo vibra antes de desabar. A queda também é parte do compasso. Os mantos pesam. As esculturas por vezes se desfazem. O material apodrece. E eu deixo que isso aconteça. Porque essa exposição não é sobre permanência — é sobre movimento.

E movimento, para mim, é a única forma honesta de existir.


 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Jardim das Águas e das Memórias

crônica para um prédio demolido (com guaraná bem gelado, por favor)