“eu”
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Esta segunda obra leva a experiência anterior a um ponto de maior densidade psicológica. A figura — agora isolada e mais frontal — parece tomada por uma espécie de convulsão interior. O rosto fragmentado, quase dissolvido em manchas de cor e linhas cruzadas, dá forma a um estado mental em colapso, um “eu” contaminado por forças que o atravessam.
Tecnicamente, o uso das canetas hidrográficas cria um contraste agressivo entre áreas planas e traços energéticos, enquanto a ausência de colagem enfatiza o gesto direto e confessional. O desenho é construído por sobreposição de planos cromáticos e padrões — espirais, zigue-zagues, preenchimentos vibrantes — que lembram o automatismo psíquico do surrealismo. Há ecos do expressionismo alemão (como em Ernst Ludwig Kirchner e Emil Nolde), do universo de Jean Dubuffet e do Art Brut — especialmente nas figuras que parecem expressar estados mentais limítrofes.
As cores — densas e discordantes — não seguem uma lógica de harmonia, mas de perturbação. Essa desordem cromática cria a sensação de um “ruído mental”, como se o corpo e o entorno compartilhassem a mesma instabilidade. O rosto, dividido em zonas de cor que se sobrepõem sem respeito à anatomia, sugere dissociação: o sujeito já não se reconhece, é habitado por algo ou alguém — o “obsessor” pode aqui ser entendido tanto espiritualmente quanto psicologicamente.
A partir da psicologia, poderíamos associar essa imagem à fragmentação do ego e às manifestações de transtornos psicóticos, como a esquizofrenia, em que o sujeito experimenta invasão de vozes, pensamentos e presenças externas. Na psicanálise freudiana, trata-se do retorno do recalcado, do inconsciente que toma forma simbólica; em Jung, poderíamos falar da sombra — aquilo que o sujeito rejeita, mas que ganha corpo e o domina.
Na história da arte, muitos artistas transitaram entre espiritualidade, loucura e criação. Adolf Wölfli e Aloïse Corbaz — pacientes psiquiátricos e criadores do universo Art Brut — são referências diretas, assim como Bispo do Rosário no Brasil, cuja produção nasce do delírio e da transcendência. Já Francis Bacon e Arnulf Rainer abordaram o corpo como território do trauma e da deformação, usando cor e gesto como sintomas visuais.
Sua figura — com a boca entreaberta, quase em grito ou transe — traz essa mesma carga catártica. É uma iconografia de possessão, mas também de expressão extrema: o corpo como espelho da mente em crise. O fundo, com suas formas fluidas e cores em expansão, não oferece repouso — parece um campo de energia psíquica, onde as fronteiras entre dentro e fora se desintegram.
É um estudo potente sobre a dissolução da identidade e a sobreposição entre o espiritual e o mental. Se o primeiro desenho tratava do ser cercado por forças, este mostra o instante em que essas forças já habitam o corpo — quando o obsessor e o eu se confundem.
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