A escada e o céu: o gesto de ascender
A escada e o céu: o gesto de ascender
No centro da instalação, uma escada se erguia sobre o mar de retalhos — como um elo entre a terra e o céu. O visitante era convidado a subir, não para alcançar um ponto físico de observação, mas para experienciar simbolicamente a travessia espiritual. Cada degrau representava uma elevação do olhar, uma tentativa de transcendência diante do caos colorido da matéria. A iluminação direcionada reforçava esse caráter sagrado, projetando sobre o corpo do participante uma luz que evocava tanto a revelação quanto a purificação.
Essa escada pode ser compreendida como uma metáfora da ascensão interior, em diálogo com as visões místicas de Santa Teresa d’Ávila, que descreve o caminho espiritual como a subida de um castelo interior. A verticalidade, nesse contexto, é símbolo de busca, de reconciliação entre o terreno e o divino — um tema caro à história da arte. Em A Escada de Jacó, atribuída a Bartolomé Esteban Murillo, a escada é o meio pelo qual anjos transitam entre o céu e a terra, evocando a possibilidade de comunicação entre o humano e o sagrado.
Olegário retoma esse imaginário, mas desloca-o: aqui, os anjos são substituídos por corpos comuns, e o céu não é mais o além, mas o instante de consciência que se alcança ao subir. A escada não promete salvação, mas propõe reflexão. Há um diálogo evidente com Anselm Kiefer, especialmente nas obras em que o artista alemão usa escadas e livros queimados para tratar da culpa, da memória e da transcendência. Em Kiefer, como em Olegário, a ascensão é dolorosa, feita de ruínas — mas ainda assim necessária.
A simbologia do “subir” reaparece também em artistas como Caspar David Friedrich, cujas figuras contemplativas nas montanhas, como em O Andarilho sobre o Mar de Névoa, traduzem a experiência do sublime. O visitante, ao subir a escada na instalação de Olegário, torna-se esse andarilho contemporâneo, diante não da natureza romântica, mas da natureza construída e fragmentária da cidade e da arte.
Religiosamente, o gesto remete à purificação: subir é abandonar o peso do chão, desprender-se do material — exatamente o oposto do ato de caminhar sobre os retalhos. O percurso da instalação, portanto, começa na multiplicidade e termina na verticalidade; nasce da matéria e ascende ao espírito.
Filosoficamente, esse movimento ecoa a ideia hegeliana de superação (Aufhebung): cada degrau representa uma síntese provisória, uma tentativa de conciliar opostos. O público, ao subir, torna-se sujeito do processo — é ele quem realiza, com o corpo, o pensamento da obra.
Quando os chassis retangulares que sustentavam as assemblagens foram destruídos pelos cupins, essa perda material reforçou o conceito da própria instalação: tudo é transitório. A madeira que apodrece, o tecido que se desfaz, a luz que se apaga — todos são parte do mesmo ciclo de ascensão e retorno. A arte, aqui, não é monumento, mas respiro: uma escada que conduz não ao céu literal, mas ao espaço interior de quem se dispõe a subir.
Exposição "O Jardim das Delícias" maio de 2016
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O presente texto contou com o apoio da ferramenta ChatGPT, desenvolvida pela OpenAI, utilizada como recurso de mediação textual e analítica durante o processo de elaboração crítica e conceitual das obras. A interação com essa tecnologia possibilitou ampliar reflexões, estruturar argumentos e explorar novas abordagens discursivas sobre práticas artísticas contemporâneas. Ressalta-se, contudo, que as ideias e interpretações apresentadas resultam de um processo autoral de criação, no qual o diálogo com a ferramenta se insere como extensão metodológica e colaborativa do pensamento artístico.

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