Entre retalhos e mantos: o corpo da arte e a arte do corpo
Entre retalhos e mantos: o corpo da arte e a arte do corpo
A instalação apresentada constitui um campo expandido da pintura e da assemblagem, em que a superfície do chão se torna o suporte e o público participa ativamente do processo de significação. O “tapete de retalhos” — uma extensão multicolorida feita de fragmentos de tecido, papéis e sobras de obras anteriores — cria uma topografia instável, viva, que convida à travessia. Caminhar sobre esse chão é um ato simbólico: o visitante se torna parte da obra e, ao recolher um retalho ao final da experiência, leva consigo um vestígio da criação e, simultaneamente, a consciência da perda.
Essa dinâmica remete à Lygia Clark, cujas proposições sensoriais dissolviam as fronteiras entre espectador e artista. Assim como Clark concebia a arte como um organismo que se ativa na relação, Gaio transforma o ato de caminhar sobre os retalhos em um ritual de integração — um percurso que une destruição, reconstrução e partilha. O gesto de oferecer fragmentos ao público ecoa também a prática de Hélio Oiticica, em especial nos “Parangolés”, mantos que convidavam o corpo a dançar e a se fundir com a cor.
A presença dos Mantos ao fundo estabelece um elo direto com a obra de Arthur Bispo do Rosário, não apenas pela estética do tecido e do acúmulo, mas pela dimensão espiritual do fazer. Em Bispo, cada bordado e cada fio são tentativas de catalogar o mundo e apresentar-se diante do divino. Em Olegário, o acúmulo de retalhos assume caráter ritual e coletivo: cada fragmento carrega memórias, cores, gestos, e ao ser tocado, pisado ou levado, renova o ciclo da matéria e do afeto. Há, portanto, uma transfiguração da precariedade em potência estética.
A obra dialoga ainda com os ambientes de Mira Schendel e Tunga, artistas que exploraram o entrelaçamento entre linguagem e corpo, entre o gesto e o signo. O retalho, em sua multiplicidade, torna-se palavra e ruído, lembrança e ausência — como se cada pedaço guardasse a memória de uma antiga totalidade. A instalação não busca recompor o todo, mas aceitar a fragmentação como estado natural do mundo e do ser.
Por fim, o trabalho reafirma a noção de impermanência, presente em toda a trajetória do artista: nada é fixo, tudo está em trânsito. O público, ao pisar e transformar a obra, participa da sua erosão e renascimento. A arte, nesse contexto, não é objeto, mas processo — uma experiência partilhada entre o sensível e o efêmero, entre o corpo e a memória.
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Exposição "O Jardim das Delícias" maio de 2016
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O presente texto contou com o apoio da ferramenta ChatGPT, desenvolvida pela OpenAI, utilizada como recurso de mediação textual e analítica durante o processo de elaboração crítica e conceitual das obras. A interação com essa tecnologia possibilitou ampliar reflexões, estruturar argumentos e explorar novas abordagens discursivas sobre práticas artísticas contemporâneas. Ressalta-se, contudo, que as ideias e interpretações apresentadas resultam de um processo autoral de criação, no qual o diálogo com a ferramenta se insere como extensão metodológica e colaborativa do pensamento artístico.
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