Jardim das Águas e das Memórias Assemblage com flores artificiais, objetos urbanos e estatueta de Iemanjá
A obra apresenta-se como um altar contemporâneo dedicado à fé e à cidade de Santos, onde o sagrado se entrelaça com o cotidiano. A técnica da assemblage — derivada das experimentações de artistas como Joseph Cornell e Robert Rauschenberg — é aqui utilizada como meio de síntese poética: fragmentos e resíduos do mundo material são reunidos e ressignificados. Flores plásticas, tampas de garrafa, rolhas e outros elementos comuns tornam-se parte de uma paisagem devocional que celebra o encontro entre natureza, artifício e espiritualidade.
No centro, a estatueta de Iemanjá — orixá das águas e mãe das cabeças — emerge envolta por uma profusão de cores e texturas, símbolo da força feminina e do fluxo vital que conecta o mar à cidade. As flores artificiais, com sua permanência sintética, contrastam com a ideia de efemeridade presente na oferenda tradicional, transformando o ato de devoção em um gesto de memória e preservação.
Ao mesmo tempo, o uso de elementos urbanos e comerciais, como tampas de refrigerante, insere a presença humana e industrial no campo do sagrado, questionando a convivência entre fé, consumo e paisagem. Essa sobreposição de planos — o profano e o divino, o natural e o plástico, o popular e o artístico — cria um espaço simbólico de comunhão e reflexão.
Assim, Jardim das Águas e das Memórias não apenas representa Iemanjá, mas propõe um diálogo entre tradição e contemporaneidade, entre o mar de Santos e a espiritualidade que habita seus habitantes. É uma oferenda visual à fé que resiste, floresce e se reinventa no coração da cidade.
Os jardins da orla de Santos, moldados entre o mar e o concreto, são um dos símbolos mais duradouros da cidade. Ali, onde o sal, o vento e o tempo se encontram, florescem memórias e gestos de cuidado que atravessam gerações. Nesta obra, as flores de plástico coladas à tela reconstroem esse espaço afetivo e coletivo, traduzindo em matéria sintética a persistência da beleza em meio à transformação.
As flores artificiais, imunes ao tempo e ao clima, evocam a tentativa humana de preservar o que é passageiro — uma metáfora para a própria cidade, que chega aos 480 anos reinventando-se entre o natural e o urbano, o sagrado e o cotidiano. Ao redor da figura de Iemanjá, o conjunto transforma-se num jardim simbólico, onde o plástico substitui o orgânico, mas não a fé, o encanto e o desejo de continuidade.
Assim como os jardins santistas acolhem caminhantes, memórias e histórias de amor, esta assemblage acolhe resíduos, cores e crenças, reafirmando o poder da arte de transformar o efêmero em celebração. É um tributo à cidade que floresce sobre a areia — e à fé que, como o mar, nunca deixa de retornar.
Fundamento das Águas
Antes de florescer em devoção e cor, a obra nasce de uma estrutura silenciosa: uma pintura abstrata orgânica, onde formas curvas e entrelaçadas se encontram como correntes marítimas. Nos tons de azul, verde e marrom — cores da terra, da vegetação e do mar — já se insinuam as forças que sustentam a fé e a paisagem santista.
Essa base pictórica funciona como um esqueleto espiritual, uma cartografia simbólica das águas e dos caminhos humanos. As tampas de garrafa e as rolhas coladas sobre a superfície introduzem o diálogo entre o sagrado e o banal, entre o gesto do consumo e o gesto da oferenda. São objetos de passagem, restos do cotidiano que, pela arte, reencontram um sentido ritual.
A técnica mistura o rigor construtivo do desenho à liberdade gestual da pintura, aproximando-se tanto da fluidez cromática de Kandinsky quanto da carga simbólica dos ex-votos populares e dos altares sincréticos brasileiros. Ao incluir o suporte de madeira que depois receberá a imagem de Iemanjá, o artista estabelece o elo entre o plano da criação e o da fé, como se preparasse um terreno para a aparição do divino.
Essa primeira camada, aparentemente abstrata, é na verdade o fundamento invisível da religiosidade que sustenta a série: o encontro entre o homem, a cidade e o mar. Ela revela que a espiritualidade, assim como a arte, se constrói em etapas — da estrutura ao gesto, da matéria ao mito.
Exposição coletiva em comemoração aos 480 anos da cidade de Santos
INTERPRETAÇÕES SANTISTAS
DIA 13 de janeiro de 2026, às 15h
Galeria de Arte "Nelson Penteado de Andrade"
Praça dos Expedicionários, n°10 - Prodesan
Visitação: Até o dia 13 de fevereiro (Segunda a sexta, das 8h às 18h)










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