Olegário Monteiro – entre o sagrado, o fragmento e a permanência do efêmero






Olegário Monteiro – entre o sagrado, o fragmento e a permanência do efêmero

Olegário Monteiro é um artista visual cuja obra transita entre a memória, a espiritualidade e a arqueologia do cotidiano. Sua trajetória se estrutura em camadas de experimentação — da pintura à assemblage, do frottage à colagem —, em um diálogo constante entre destruição e reconstrução.

Desde Impermanência(s), exposição que marcou uma virada conceitual em sua produção, Olegário tem aprofundado uma poética dos resíduos: cacos de vidro, fragmentos urbanos, flores de plástico e restos cerâmicos tornam-se portadores de história e afeto. Em suas mãos, o descartável ganha dignidade simbólica; o fragmento, potência narrativa.

Na série Cadência dos Fragmentos, o artista alcança maturidade estética e filosófica. O gesto de cortar, reorganizar e recompor não é apenas formal, mas ritualístico — um exercício de fé e reconstrução do sentido. Sua pesquisa sobre combine painting e a incorporação de materiais não convencionais evocam tanto Hélio Oiticica quanto Robert Rauschenberg, sem jamais abdicar de uma identidade própria: visceral, devocional e profundamente brasileira.

Obras como Jardim das Águas e das Memórias revelam um olhar sensível à cidade de Santos, às águas e à fé popular. Ao integrar uma estatueta de Iemanjá e flores artificiais, Olegário reafirma a coexistência entre o sagrado e o urbano, o ritual e o descarte, o mito e a ruína.

Entre influências que vão de Arthur Bispo do Rosário a Peter Gabriel, sua prática expande-se para o campo sonoro e performático, incorporando ruídos urbanos e experiências sensoriais. Olegário Monteiro não apenas cria obras — ele constrói passagens entre mundos, onde o tempo, a fé e a matéria se encontram em permanente transformação.


 

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