O deslocamento pelas ruas
Monteiro constrói, em Terras Abstratas, uma poética que não se acomoda — ela pulsa, colide e se reorganiza a partir de um repertório tão amplo quanto indisciplinado. Há, em sua produção, a tensão entre o rigor estrutural e o desvio expressivo, algo que ecoa tanto a crueza fragmentária de Ricardo Ramos em Circuito Fechado quanto a violência coreografada de Quentin Tarantino, onde cada elemento parece calculado, mas nunca estéril. Sua obra se constrói nesse limiar: entre o controle e o acidente.
Na pintura, Olegário reivindica a energia do gesto. A herança de Jackson Pollock não aparece como citação superficial, mas como método incorporado — o corpo como extensão direta da matéria. O drip não é apenas técnica, é inscrição física do tempo. Cada camada, cada escorrimento, carrega uma temporalidade própria, quase como se o suporte fosse um campo de registro sísmico das suas ações. Há também um eco distante de Salvador Dalí, não na forma, mas na licença de tensionar o real até o limite da dissolução.
Se na pintura o gesto é expansão, na assemblagem há condensação. Olegário coleta o que a cidade rejeita — fragmentos de praia, restos urbanos, matéria esquecida — e reorganiza esses elementos em composições que dialogam com a potência simbólica de Arthur Bispo do Rosário e a crítica incisiva de León Ferrari. Não se trata de reaproveitamento estético, mas de reinscrição: cada objeto carrega vestígios de uso, memória e desgaste. Ao serem deslocados, deixam de ser resíduo e passam a operar como signos. Há, nesse gesto, algo também de Andy Warhol — não pela repetição industrial, mas pela transformação do banal em linguagem.
Essa mesma lógica atravessa sua relação com o corpo. Caminhar e dançar não são ações periféricas, mas parte constitutiva da obra. O deslocamento pelas ruas, a coleta, o ritmo do passo — tudo isso se organiza como performance contínua. Há uma presença quase ritual, por vezes silenciosa, que se aproxima de uma dimensão espiritual — algo que poderia ser intuído na entrega radical de Santa Teresinha do Menino Jesus, onde o gesto simples é carregado de intensidade absoluta.
No campo narrativo, sua produção dialoga com universos que tensionam linguagem e identidade. A fragmentação psicológica de Chuck Palahniuk em Clube da Luta, a distopia linguística de Anthony Burgess em A Clockwork Orange, o imaginário gótico-pop de Tim Burton — tudo isso parece atravessar sua obra não como influência direta, mas como ressonância. Até mesmo a atitude iconoclasta de John Lennon encontra eco em sua recusa de formas estabilizadas.
Terras Abstratas, que inaugura no dia 4 de abril de 2026, no Orquidário Municipal de Santos, não é apenas uma exposição — é um sistema em funcionamento. Um território onde matéria, gesto e memória são continuamente reorganizados. Olegário não apresenta respostas, mas estruturas abertas, onde o espectador é convocado a atravessar camadas de significado sem garantias de estabilidade.
No fim, sua obra não pede contemplação passiva. Ela exige presença. Como um circuito em constante ativação, onde cada fragmento — por menor que seja — participa de uma engrenagem maior, silenciosa e implacável.

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