IMPERMANÊNCIA(S)





 IMPERMANÊNCIA(S) 

Frottage, cadáveres e fragmentos do invisível 

  

Tudo o que é fixo, escorre. Tudo o que é inteiro, racha. 

Impermanência(s) é a cartografia de um mundo em desintegração — uma arqueologia tátil do tempo que escapa pelas frestas da memória. 

Aqui, o gesto é o vestígio. 

Os frottages, feitos com a urgência de quem sente a matéria morrer enquanto é tocada, registram texturas efêmeras: calçadas gastas, ferros oxidados, madeiras sagradas, folhas esquecidas. Cada impressão é uma prova de existência — mas também de ausência. Uma presença-fóssil. Uma lembrança em atrito. 

 Mas essa exposição não se contenta em testemunhar. 

Ela incorpora o jogo e o delírio. 

Nas bordas das composições, o acaso se infiltra, abrindo espaço para o encontro entre vozes, formas e silêncios. Como no cadavre exquis surrealista, os fragmentos se juntam sem lógica aparente, compondo corpos desmembrados de sentido — e, justamente por isso, mais verdadeiros. Uma palavra dita ontem se costura a uma imagem colhida há meses. Um desenho feito em fé se conecta a outro em revolta. 

 Há fé, sim. 

Mas ela se dobra, se rasga, se refaz — como os papéis que receberam as marcas da rua, da vida, do corpo. A espiritualidade aqui não é dogma: é poeira, é palimpsesto. Política, religião, memória e dor se embaralham como partes de um ser coletivo e imperfeito. Um ser que somos todos nós. 

 Impermanência(s) é um eco — não só de imagens, mas de histórias interrompidas. 

É um cadáver que fala. Um delírio metódico. 

É o ato de deixar-se atravessar. 

Max Ernst sussurra por entre as linhas. 

Breton ri ao fundo. 

Mas o rosto é o teu. As mãos, as tuas. 

E o que vibra no papel... também. 

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Fragmentos em Suspensão 

Carrego comigo papéis, cacos, pigmentos e dúvidas. 

  

Esta exposição nasce da fricção entre o instante e a matéria. Dos rastros deixados em muros, calçadas e superfícies esquecidas. E do gesto insistente de quem, mesmo sem certezas, continua a marcar o mundo — com giz, com vidro, com memória. 

As frottages são, para mim, orações silenciosas. Mapas táteis do invisível. Às vezes surgem sozinhas, quase como relâmpagos. Outras, são costuradas com pedaços de plástico, cerâmica, metais ou areia — achados do acaso e da maré. Cada um deles carrega o tempo: o tempo da decomposição, da erosão, da transformação. 

As pequenas assemblagens que hoje apresento aqui são sementes. Elas dialogam com as grandes peças que virão — em julho, quando retorno ao barro, ao gesto da pintura, à rua e à praia como ateliês vivos. Mas já estão aqui: discretas, cúmplices, irônicas às vezes, mas sempre presentes. 

Toda essa série é também um ensaio sobre a fé. Fé nos encontros, nos sinais, no que não se vê. E, talvez, no que ecoa. 

O eco de uma dor, de uma crença, de um país em ruínas. Ou o eco do riso de um menino com giz nas mãos. 

Esta mostra é uma travessia. E você, visitante, é parte dela. 

Seja bem-vindo. 

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Impermanência(s) apresenta uma série de trabalhos que partem da técnica de frottage, somada à colagem e pequenas assemblagens, muitas delas realizadas com fragmentos encontrados nas ruas e nas praias. A mostra propõe um diálogo entre o abstrato e o figurativo, revelando camadas simbólicas que transitam entre o pessoal, o político e o espiritual. Ainda que essa exposição seja autônoma, ela estabelece um elo com a próxima mostra, que será apresentada em julho, criando um fio contínuo de pesquisa e sensibilidade. 

Há fé, sim. 

Mas ela se dobra, se rasga, se refaz — como os papéis que receberam as marcas da rua, da vida, do corpo. A espiritualidade aqui não é dogma: é poeira, é palimpsesto. Política, religião, memória e dor se embaralham como partes de um ser coletivo e imperfeito. Um ser que somos todos nós. 

Nas bordas das composições, o acaso se infiltra, abrindo espaço para o encontro entre vozes, formas e silêncios. Como no cadavre exquis surrealista, os fragmentos se juntam sem lógica aparente, compondo corpos desmembrados de sentido — e, justamente por isso, mais verdadeiros. Uma palavra dita ontem se costura a uma imagem colhida há meses. Um desenho feito em fé se conecta a outro em revolta. 

Eu passo o lápis sobre a superfície e o que antes estava oculto começa a emergir. A frottage é, para mim, um exercício de resgate e projeção. Ao pressionar o grafite, carvão ou pastel contra o papel, capto vestígios do tempo, marcas que se acumulam e contam histórias sem palavras. Cada textura revelada é um fragmento do passado, um eco daquilo que já existiu e que, de outra forma, poderia se perder na poeira do esquecimento. 

O ato de friccionar e registrar é, ao mesmo tempo, um gesto arqueológico e um presságio. Enquanto resgato impressões esquecidas — fissuras em madeiras antigas, relevos de moedas gastas, padrões de tecidos que carregam memórias — também lanço pistas para o futuro. O que essas marcas significarão amanhã? Como serão interpretadas por outros olhos, em outros tempos? 

A cada folha preenchida, percebo que a técnica não apenas captura texturas, mas também sugere camadas de interpretação. Um muro desgastado pode evocar a solidez de tempos imemoriais ou a iminência de um colapso. A casca de uma árvore, transferida ao papel, pode ser um registro de resistência ou um lamento silencioso da natureza. E assim, sigo colecionando marcas, impressões que ultrapassam o instante e me fazem refletir sobre o que deixamos para trás e o que ainda está por vir. 

A frottage, no fim, não é apenas um método de criação — é um testemunho do tempo e uma premonição da matéria. Cada textura, uma lembrança. Cada marca, uma possibilidade. Entre o visível e o invisível, eu desenho o que já foi e o que talvez ainda venha a ser. 

 

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