Delírios do Sagrado


Delírios do Sagrado

Vivemos em uma era em que a produção de lixo se tornou uma das maiores questões globais. Cada vez mais, a sociedade é movida pela necessidade de consumir, e, com isso, o descarte de resíduos acompanha esse ritmo frenético. A indústria alimentícia, farmacêutica e de bens de consumo em geral contribuem significativamente para esse cenário, criando um ciclo de descarte constante que se espalha por todas as regiões do mundo. E, dentro desse ciclo, os dejetos marinhos surgem como uma das maiores preocupações ambientais. A quantidade de plástico flutuante nos oceanos, estimada em 5 trilhões de pedaços, é um exemplo gritante do descuido humano, revelado pela pesquisa da ONG 5 Gyres.

Como artista e cidadão consciente, me vejo em uma posição de responsabilidade para contribuir com a conscientização desse fenômeno devastador. A arte, para mim, é uma ferramenta poderosa de transformação social. Ao caminhar pelas praias de Santos, sinto uma mistura de indignação e inspiração ao ver o lixo que cobre o litoral. As tartarugas, tubarões e focas que perdem suas vidas ao confundirem plástico com comida ou ficarem presos em redes abandonadas não são apenas números em uma estatística. São reflexos da forma irresponsável com que tratamos o meio ambiente e, por consequência, as vidas que dependem dele.

O processo de recolher o lixo da praia, de transformar esses resíduos em arte, não é apenas um ato de criatividade, mas também de resistência. Depois de horas selecionando cacos de vidro, tampinhas de garrafa, pedaços de plástico, eu os levo para meu estúdio, onde os lavo, limpo e preparo para seu novo propósito. Ao aplicá-los sobre telas, uso tintas para dar vida nova a esses materiais que, à primeira vista, não passam de dejetos descartáveis. Cada peça tem sua história, cada objeto tem sua marca do tempo e da deterioração causada pelo mar. Minha intenção é mostrar que o lixo marinho, além de ser um problema ecológico, pode ser ressignificado.

Acredito que a arte pode, sim, ser um agente de mudança, e meu trabalho com o lixo marinho é uma tentativa de comunicar a urgência dessa mudança. Quando o público interage com minhas obras, vestindo peças criadas com esses materiais ou contemplando os detalhes de cada objeto colado e pintado, quero que eles entendam a magnitude do problema que enfrentamos. A arte é, para mim, uma forma de engajamento social e ambiental. É o meu grito silencioso para que mais pessoas despertem para a realidade que vivemos e comecem a repensar a forma como consomem e descartam.

Meu objetivo não é apenas criar algo esteticamente agradável, mas provocar reflexão e, quem sabe, uma mudança de atitude. Afinal, cada pedaço de plástico que resgato das praias é um pequeno passo para que o mar respire um pouco mais aliviado. Acredito que qualquer forma de expressão artística que busque trazer à tona questões sociais e ecológicas merece destaque, e é por isso que continuo criando, reciclando e reinventando. A arte, para mim, é a maneira mais autêntica de falar sobre aquilo que me inquieta, e o lixo marinho é uma dessas inquietações que transformo em cor, forma e consciência.

O sagrado e o contemporâneo, na arte, sempre caminharam de maneira interligada, ainda que às vezes se apresentem como forças opostas. Ao pensar em obras que exploram o tema do sagrado, me vem à mente a profundidade com que artistas de diferentes épocas, estilos e movimentos trouxeram para suas criações a dimensão espiritual, o simbolismo religioso e as questões existenciais ligadas ao divino. Ao mesmo tempo, a arte contemporânea trouxe novas formas de representar o que é sagrado, em muitas vezes rompendo com tradições ou ressignificando símbolos antigos.

Penso em como os mantos são um dos objetos mais antigos e carregados de simbolismo religioso. No Antigo Testamento, por exemplo, o manto de Elias e Eliseu tem uma simbologia de poder espiritual e proteção divina. Na tradição cristã, os mantos dos sacerdotes e líderes espirituais carregam a ideia de santidade e respeito, sendo tecidos com cores e bordados que remetem à sacralidade. Hoje, no contemporâneo, artistas como *Arthur Bispo do Rosário* ressignificam esse objeto, transformando-o em uma obra de arte que carrega não apenas o peso do sagrado, mas também da insanidade, da resistência e da marginalização.

O *Manto da Apresentação* de Bispo do Rosário, feito a partir de materiais descartados e bordados à mão, carrega essa dualidade entre o sagrado e o profano. Ele, que se via como um enviado de Deus, cria seu manto como uma peça que seria usada no julgamento final, uma fusão de seu delírio religioso e sua genialidade artística. É um objeto sagrado aos seus olhos, mas ao mesmo tempo é uma obra de arte contemporânea, que desafia a ideia tradicional do que é "sagrado" ao ser feito de restos do hospital psiquiátrico. O contemporâneo, aqui, ressignifica o sagrado por meio do marginalizado.

Outro exemplo de representatividade do sagrado na arte contemporânea que me fascina é o trabalho de *Anselm Kiefer. Kiefer explora temas bíblicos, místicos e esotéricos em suas enormes telas e instalações. Uma de suas obras mais conhecidas, **"Zweistromland" (1985-89)*, apresenta livros de chumbo colocados em prateleiras, como se fosse um templo do conhecimento sagrado. Esses livros, que são impossíveis de abrir, simbolizam o peso e o mistério do conhecimento divino. O uso de chumbo, um material pesado e opaco, me lembra o limite entre o que é acessível e o que está além do humano — um diálogo constante entre o sagrado e o intangível.

O sagrado na arte também passa pela arquitetura dos templos religiosos. Igrejas, mesquitas, sinagogas, e templos de todas as religiões, ao longo dos séculos, foram concebidos para inspirar um senso de reverência e conexão com o divino. Um exemplo clássico que carrega essa simbologia é a *Catedral de Notre-Dame* em Paris. A imponência de sua arquitetura gótica, os vitrais coloridos, e os detalhes esculpidos na pedra nos conectam ao sagrado pela sua grandiosidade e beleza. Aqui, o espaço sagrado é construído para o coletivo, para a comunidade em busca do divino.

No entanto, o contemporâneo tende a desconstruir essa sacralidade coletiva, muitas vezes voltando-se para o indivíduo. Penso em *Olafur Eliasson, que cria experiências imersivas, como na sua famosa obra **"The Weather Project" (2003)*, exibida na Tate Modern, em Londres. A instalação usa luz e espelhos para criar uma simulação de um sol, com a ideia de nos fazer refletir sobre nossa relação com a natureza e o universo. Aqui, o sagrado não é algo religioso no sentido tradicional, mas sim uma conexão espiritual com o meio ambiente e com a nossa própria interioridade.

O diálogo entre o sagrado e o contemporâneo também é evidente na obra de artistas como *Marina Abramović, que, em performances como **"The Artist is Present" (2010)*, explora o sacrifício, a resistência e a meditação como formas de transcender o corpo físico e tocar o que poderia ser considerado espiritual. Para mim, Abramović evoca o sagrado de uma maneira minimalista e profundamente pessoal, através de sua presença e do confronto com o tempo.

A arte contemporânea tem a capacidade de explorar o sagrado de maneira mais ampla e diversa do que nunca. *Yinka Shonibare, por exemplo, desafia a noção de sagrado e poder colonial em suas esculturas e instalações. Em obras como **"Nelson's Ship in a Bottle" (2010)*, Shonibare usa tecidos africanos para cobrir objetos de poder imperial britânico, como o navio de guerra. Aqui, o tecido — algo que pode ser usado em mantos ou roupas cerimoniais — é ressignificado, questionando o poder e a identidade cultural.

Acredito que a representatividade do sagrado na arte está em constante transformação. O que era sagrado ontem, hoje é revisto, ressignificado, desafiado. Os objetos, como mantos, templos ou até mesmo elementos do cotidiano, podem carregar um valor sagrado que transcende o tempo, mas, ao mesmo tempo, são trazidos ao presente por meio da arte contemporânea. Isso revela não apenas uma permanência do sagrado, mas sua capacidade de se adaptar, de se mesclar ao contemporâneo e de continuar a dialogar com nossa necessidade de encontrar significado no mundo ao nosso redor.

A arte, tanto a antiga quanto a contemporânea, é onde o sagrado e o profano encontram terreno comum. Ela nos oferece espaço para explorar nossos medos, esperanças e nossas conexões com o que é maior do que nós. Para mim, a beleza desse diálogo está na sua capacidade de nos fazer olhar além do material, além do visível, e nos conectar com o que é profundamente humano e, de certa forma, sagrado.

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