Fronteiras entre Fé e Razão

 



 "Fronteiras entre Fé e Razão"

Eu sempre fui atraído pela complexidade da mente humana, pelas fronteiras entre a sanidade e a demência, e pela busca incessante por sentido. Em minhas criações, o improviso, embora muitas vezes planejado, se entrelaça com esses temas. Porém, o improviso surge no processo de montagem, quando tudo que eu pintei, colei, recortei, e construí em meus dias de trabalho intenso começa a tomar nova forma. O espaço físico onde exporei as obras já me é familiar, mas é no ato de organizar que os labirintos da fé e os rituais da razão começam a se revelar de maneiras inesperadas.

As peças que crio são uma mistura de fé e ateísmo, de espiritualidade e dúvida. Acredito que somos todos feitos de fragmentos — fragmentos de crenças, de histórias, de memórias despedaçadas. Minha arte reflete isso. Obras como Fé Fragmentada ou Crença Despedaçada surgem justamente dessa ideia de que a fé, como a mente, pode ser quebrada e reconstruída. Eu trabalho com materiais encontrados — objetos que foram descartados, pedaços de lixo que recolho nas ruas e praias de Santos — e através desse processo de reciclagem, crio mantos, dioramas, e até fachadas de edifícios, como as do centro de Santos, que se tornam metáforas para os ídolos quebrados dentro de nós.

É inevitável que o pálido altar da razão e da fé colida com o que estudamos na psicologia e na psiquiatria. Afinal, quem pode dizer onde termina a sanidade e começa o transtorno? Essas são questões que atravessam o meu trabalho. Me inspiro em grandes artistas que também exploraram o limite da mente humana, como Arthur Bispo do Rosário, e, como ele, busco dar voz aos ecos da consciência que habitam as sombras da sociedade.

Cada pincelada, cada colagem, é um crepúsculo da razão. Enquanto trabalho, frequentemente ouço músicas dos anos 80, que embalam o processo de criação. Entre passos rápidos, quase em transe, aplico tinta, areia, cacos de vidro, vidro moído, conchas e outros materiais orgânicos. Esses elementos texturais são os delírios do sagrado, o que resta quando o divino se desintegra e a mente tenta dar sentido ao caos. As obras que resultam disso são tanto sagradas quanto caóticas.

Através dos anos, também desenvolvi uma técnica de pintura de ação e gotejamento, inspirada por Jackson Pollock, onde o ato de criar se torna um despertar da dúvida. Eu nunca sei ao certo como a peça vai terminar, e essa incerteza é parte do processo. As tintas falham, os materiais interagem de maneiras imprevisíveis, e o que emerge é uma expressão crua do véu da sanidade que cobre a mente humana.

Ao pensar na minha exposição, queria que o público pudesse vivenciar esse jogo entre sagrado e caos, mentes profanas, e vozes do vazio. As fachadas de edifícios que criei são metáforas dos abismos do ser, e o fio da demência que permeia cada obra é uma linha invisível que liga o humano ao divino, ao racional e ao irracional. A interação entre fé, dúvida, e doença mental é sutil, mas poderosa.

Seja na criação de mantos que podem ser vestidos pelo público, ou nos dioramas que remetem ao limite do real, minhas obras convidam à reflexão. Cada peça é uma trilha para o desconhecido, uma busca pelo divino ou, talvez, uma fuga dele. A fronteira do desespero é onde muitas de minhas obras nascem, e é também onde o público pode encontrar ressonâncias de suas próprias crises.

Ao criar essas peças, sou consciente do quanto minha obra tem raízes em questões profundas. Estudo constantemente psicologia e psiquiatria, e, recentemente, um livro antigo chamado "Manual de Psiquiatria" tem me inspirado a explorar ainda mais os temas de transtornos e demências. A mente humana, como a fé, é um labirinto de crenças e crises, e meu trabalho é um reflexo dessas encruzilhadas.

No entanto, também reconheço a importância da honestidade no processo. Nos últimos meses, tenho contado com o auxílio da IA para aprimorar e organizar minhas ideias, textos e reflexões. Embora as palavras passem por aqui, é sempre minha mão que decide o rumo e o sentido. Não quero que ninguém tenha a impressão errada; as ideias, os conceitos e o processo de criação são inteiramente meus. A tecnologia é uma ferramenta, assim como a tinta, as conchas ou os cacos de vidro que uso nas obras.

No final, cada peça é uma jornada pelos caminhos sem deuses, por vidas invisíveis, por um céu em ruínas, onde a dúvida, a fé, a mente e o corpo se encontram. E assim, ao montar minha exposição, entre o improviso e o planejamento, espero que o público possa enxergar nas minhas criações as faces do desconhecido, e quem sabe, ao vesti-las ou interagir com elas, encontrar suas próprias trilhas do inconsciente.


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