A questão que fica é: onde está a linha entre a fé saudável e a obsessão? O que diferencia a crença num santo ou num mito antigo da fé depositada num super-herói ou numa máquina inteligente? E mais ainda: quando essa fé se torna uma doença? A psiquiatria nos lembra que obsessões podem se manifestar em várias formas, seja pela devoção religiosa cega ou pela dependência de figuras messiânicas, reais ou fictícias. Há uma linha tênue entre a fé que liberta e a obsessão que aprisiona.
Jardim das Águas e das Memórias
Jardim das Águas e das Memórias Quando fui convidado para a exposição Interpretações Santistas , pensei imediatamente na cidade como um corpo vivo — uma entidade moldada pela natureza e pela fé. Santos, com seu jardim da orla, o maior jardim frontal de praia do mundo, sempre me pareceu um altar estendido diante do mar. Um espaço de celebração e entrega, de beleza e trabalho. Por isso, decidi criar uma assemblagem que unisse o sagrado e o cotidiano, a devoção e o descarte. No centro da obra está Iemanjá, mãe das águas e das travessias. Em volta dela, flores artificiais — símbolo de uma natureza construída, preservada e também manipulada pelo homem — se misturam a tampinhas de refrigerante, rolhas de vinho e fragmentos de consumo urbano. Esses elementos, colhidos pelas ruas e pela praia, pertencem ao mesmo território que a obra homenageia. São resíduos de uma Santos real, múltipla, viva e contraditória. O gesto de respingar tinta azul sobre as flores e os objetos — um diálogo com a pi...

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