Antes do corte

 

Antes do corte

Não me lembro do dia exato em que comecei a fazer frottages. Talvez tenha sido uma fuga, talvez um chamado. Só sei que havia uma necessidade — de escutar o mundo com as mãos. Passei a carregar papel e giz como quem carrega um relicário.

E fui imprimindo o que a cidade calava: rachaduras de muros, inscrições corroídas, restos de ruas, fragmentos de pedra, plástico, ferrugem. A superfície do mundo tornou-se matriz e memória. Com o tempo, percebi que não bastava capturar o rastro. Era preciso deixá-lo ir. Ou melhor: cortá-lo.

Comecei a picotar os papéis. Não por raiva ou desprezo, mas como quem oferece algo ao silêncio. Como quem entende que tudo o que foi um dia, precisa deixar de ser para fazer sentido de novo. Cortar tornou-se rito. Um gesto radical de fé, dúvida, política e poesia. Essas crônicas nasceram entre esses cortes. São tentativas de traduzir o que restou — entre um rasgo e outro.

Porque às vezes, o que permanece, não é a imagem. É o vazio que ela deixou.


















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