Espelho da Terra: entre o toque e o olhar





 ''A combinação do frottage com desenho e pintura já cria camadas materiais e simbólicas, mas o espelho inserido no “tronco da árvore” é um gesto poético e crítico ao mesmo tempo. Ele rompe a quarta parede da arte, fazendo o espectador se ver dentro da obra, literalmente — é o visitante que vira a figura central da paisagem.''


Espelho da Terra: entre o toque e o olhar

Nesta obra, o gesto do frottage, aquele que parte do contato direto com o mundo, revela-se não apenas como técnica, mas como forma de escuta. A textura inicial é só o começo: o desenho segue como se buscasse sentido num terreno instável, onde o que é memória se mistura ao que é desejo.

As cores vibram, contrastam, não pedem permissão. O que parecia um campo tranquilo se transforma numa cartografia da psique: montanhas se erguem, casas se afastam, o céu se inclina. E no centro, entre uma árvore e um rasgo na paisagem, um espelho ovalado — um olho, uma janela, um vórtice.

Ali, quem olha vê a si mesmo. A obra, que parecia falar do mundo, passa a falar de quem a contempla. O sujeito é tragado pela imagem e passa a habitá-la. A casa do fundo talvez seja a infância. Ou talvez nem exista. O espelho não mente, mas também não explica. Apenas reflete o que há de impermanente: o rosto do agora.

Como no joio e no trigo, tudo cresce junto: técnica e instinto, matéria e espírito, artista e espectador. O que se separa — se é que se separa — é no tempo da maturação. Até lá, seguimos entre os fragmentos, colagens e ruínas, tentando nos ver.

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